sábado, 11 de abril de 2015

Na cadeia, surgiu a idéia de criar-se a USP


Professores da missão francesa, em 1934, que ajudaram na criação da USP
(Foto: Acervo Caph/USP)

  A Edição Especial pelos 140 anos do Estadão, publicada no Jornal O Estado de S. Paulo, de 18 de janeiro de 2015, traz artigo de autoria de José de Souza Martins, sociólogo e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, na qual ele faz um relato sobre a criação da Universidade Estadual de São Paulo (USP).

   Ele cita que "já preso, em 1932, logo após vencida a Revolução Constitucionalista pelas tropas federais, Júlio de Mesquita Filho (proprietário do Estadão), escreveu para sua esposa, Marina, pedindo para que na visita do dia seguinte lhe levasse exemplar do livro de Émile Durkheim intitulado Éducation et Sociologie e de seu discípulo, Célestin Bouglé, Les Idées Ealitaires - Étude sociologique. Na cadeia e no exílio, o jornalista, formado pela Faculdade de Direito e autodidata em Sociologia, estudava e preparava sua maior obra - a universidade".

   Dá-se a entender que, entre as muitas contribuições da Epopeia de 1932, a mesma também foi o facilitador para que Mesquita, embora preso, mantivesse seus ideais e logo após viesse a concretização da USP, hoje uma das mais conceituadas universidades brasileiras.

   O autor do artigo diz que "tanto a Revolução de 1930 quanto a de 1932 encerravam contradições. A derrota na Revolução Constitucionalista não foi a derrota no pelo sentido da palavra. Mostrou a Getúlio Vargas o caminho da composição com São Paulo e suas forças políticas e sociais emergentes, o que se deu, também, ao lado da elite paulista. (...) Os industriais, na figura emblemática de Roberto Simonsen, que havia apoiado a Revolução Constitucionalista, foram beneficiados pela política industrialista de Vargas. Por meio deles, a Revolução de 30 mudava o eixo econômico do país deslocando-o da agricultura latifundista de exportação para a moderna economia industrial voltada para o mercado interno".

   O artigo ainda diz ser "significativo que Armando de Salles Oliveira, engenheiro formado pela Escola Politécnica e um dos sócios e diretor de 'O Estado de S. Paulo', tenha sido nomeado interventor, em outubro de 1933, e em seguida eleito governador. Ao retornar do exílio, sendo cunhado do interventor, Julio de Mesquita Filho reanimou no grupo do Estadão o debate sobre a criação de uma universidade. Que se tratava de projeto amadurecido desde o inquérito sobre a educação, na redação, na prisão e no exílio, mostra-o a rapidez com que a proposta foi implementada: a Universidade de São Paulo foi criada em 25 de janeiro de 1934, aniversário de fundação de São Paulo".

   O autor ainda lembra que a criação da USP era parte de um projeto revolucionário: "o fato de que Julio Mesquita Filho perfilhasse um ideal liberal e antioligárquico e reunisse a herança de uma história familiar de vinculação aos movimentos insurgentes de republicanização da República, que se iniciam com a Dissidência Republicana de 1901 e culminam com na Revolução Constitucionalista de 1932, situa a USP no elenco de acontecimentos de construção de uma sociedade moderna e democrática no Brasil". 

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