quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O cotidiano de uma guerra. Sem mitos e ufanismo




O Museu Paulista apresenta uma mostra especial sobre a Revolução de 1932. Através de fotos, cartazes, depoimentos, objetos, registra uma realidade que abateu centenas de constitucionalistas e oficialmente foram contados 634 mortos e 1.273 feridos.

LEILA KIYOMURA MORENO



Exposição procura envolver os visitantes no clima da revolução

 Quando chegou 32 houve a revolução que foi tipicamente uma revolução burguesa porque foi a burguesia de São Paulo que se levantou: os Moraes Barros, os Paes de Barros... Anunciavam um comício na porta da Catedral da Sé, iam os homens e as senhoras e gritavam na rua. As mulheres se davam as mãos com os braços cruzados no peito e desciam a rua gritando: “São Paulo é dos paulistas. Tenentes, abaixa a crista”. Os tenentes se instalaram aqui e passaram a governar São Paulo. Em 1932, São Paulo inteirinho trabalhou. Foi um trabalho bonito, de solidariedade. E o Brasil inteiro veio contra São Paulo. Nós fomos guerreados em todas as frentes: de Minas, do Rio, do Paraná... A revolução durou de 9 de julho a 28 de setembro. Três dias depois, os aviões que os revolucionários de São Paulo tinham recebido do exterior voaram pelos ares, foram explodidos para não se entregar. Aí Getúlio tripudiou sobre São Paulo. Nós pagamos imposto de guerra: todo funcionalismo público tinha um desconto de oito mil réis por mês (um dia de trabalho) para pagar os custos da guerra durante três ou quatro anos...


                                 

No começo achávamos que São Paulo ia ganhar... Mas lá fora diziam que São Paulo queria a independência. As comunicações foram interrompidas. Desceram os cangaceiros do nordeste e Itapira, interior paulista, onde é a casa de meus padrinhos, foi depredada... O comandante daquela frente levou com ele até as samambaias de minha tia. Levaram a porcelana Limoges. O piano, que não puderam levar, arrebentaram a coronhadas...




As lembranças desta senhora que assina como dona Brites e de outras pessoas que viveram a angústia, o temor e a expectativa da Revolução de 32 derrubam os mitos e o ufanismo. Elas falam do cotidiano amargo de uma guerra que abateu centenas de pessoas. Oficialmente foram registradas 634 constitucionalistas mortos em 85 dias de combate. Acredita-se, no entanto, que este índice tenha sido muito maior. Mesmo assim, é expressivo, se for comparado com os 451 pracinhas brasileiros que perderam a vida durante a Segunda Guerra. Importantes, ainda, os dados da Santa Casa de São Paulo que acolheu 1.273 soldados feridos durante os confrontos.

É essa história mais próxima da realidade que o Museu Paulista da USP, mais conhecido como Museu do Ipiranga, está contando em uma exposição muito especial. “1932: Cotidiano e Memórias da Revolução Constitucionalista” tem a curadoria da historiadora Cecília Helena Salles de Oliveira, a montagem do museólogo Ricardo Nogueira Bógus e a programação visual de Christine Fidalgo.
Reúne fotos, cartazes e objetos que vão desde medalhas, capacetes, cantis até peças de artilharia. “Nós abordamos o tema seguindo duas linhas de questionamento: a complexidade da guerra civil que contrapôs parcelas significativas da elite e da sociedade paulistas ao governo chefiado por Getúlio Vargas e aspectos da vivência de soldados e voluntários nos campos de batalha, destacando a campanha de mobilização popular que sustentou a luta armada em São Paulo", explica a pesquisadora.



Fotos tiradas pelos próprios combatentes revelam o cotidiano da guerra. A intenção do Museu Paulista é despertar a reflexão e o questionamento. “Os visitantes ficam à vontade para conhecer e interpretar a realidade da Revolução de 32”, diz o museólogo Ricardo Bógus


Os depoimentos, extraídos da pesquisa “Memória e Sociedade”, de Ecléa Bosi, também levam a novas reflexões sobre essa guerra. A exposição deixa o público à vontade para interpretar e tirar suas próprias conclusões. Contrapõe opiniões pondo em xeque as diversas versões sobre a realidade dos acontecimentos.
Há, por exemplo, o depoimento de um combatente que assina como Abel. Ele relata, com detalhes curiosos, os episódios de 22 e 23 de maio e as mortes de Miragaia e Dráusio, porém deixa escapar o seu idealismo sobre os fatos:
A Revolução de 32, esta sim! Ela não perdeu, ela apenas ensarilhou suas armas porque o Getúlio tinha rasgado a Carta Magna. Ele enganava os trabalhadores. Mas a revolução não perdeu, ela deixou de lutar quando nós já tínhamos obtido o que queríamos. O fim já tinha chegado. O ideal era aquele, a Constituição... Eu, esse que vos fala, Abel, morava na então pensão Mello, esquina da rua do Arouche com a Praça da República. Ali jantava comigo Miragaia, o José Miragaia, que vinha de São José dos Campos... Era aí naquela esquina, onde estava o antigo PPP, Partido Popular Paulista, de que era presidente o doutor Miguel Costa. Então, nós descemos para ver o que havia. O Miragaia estava comigo. Quando nós chegamos perto do PPP, saiu detrás de uma árvore um homem armado de uma carabina. Eu e Miragaia arrancamos o fuzil da mão dele e corremos. Então, ouvimos o ruído de tiros. Eu não estava acreditando, eu estava pensando, aquilo devia ser tiro de festim, porque era impossível dar tiro à tôa, sem quê nem como. Nós não havíamos feito nada, não sabíamos nem do que estava se tratando. Quando chegamos naquela esquina, antes da avenida São João, eu me joguei no chão e o Miragaia também. Eu dali continuei dando tiro... Então fui chegando, sempre de rastos e dando tiro e vi que ele, Miragaia, tinha levado um tiro na nuca. Assim, ele era a primeira vítima da revolução. Subi pra minha casa... Mas nisso eu ouço um gemido que vem de baixo. E tinha um senhor bem vestido deitado lá embaixo, vestido de branco, e gemia, gemia... Desci... Então, ele disse: ‘Meu nome é Dráusio’. Segunda vítima da revolução. A respeito de Martins e Camargo, nada sei, não ouvi falar...



Um povo heróico e ingênuo


Através das fotos, muitas delas tiradas pelos combatentes, é possível compor a realidade de um povo heróico, corajoso, porém ingênuo. Segundo pesquisas da equipe do Museu Paulista, participaram cerca de 40 mil brasileiros de São Paulo e Mato Grosso e 120 mil dos outros Estados da União estiveram envolvidos nas operações militares que se caracterizaram por batalhas campais, ações de guerrilha nas montanhas e pequenos combates. Houve, ainda, mais 200 mil homens que se apresentaram como voluntários para as tropas constitucionalistas em São Paulo. A maioria era descendente de imigrantes e outros vinham de Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
A exposição registra também a participação ativa das mulheres. Foram 72 mil trabalhando como voluntárias, representando 15% da população feminina do Estado de São Paulo. Figuravam nas comissões ou se dirigiam para as cidades próximas dos combates para ajudarem como enfermeiras ou farmacêuticas. Muitas se encarregavam também de divulgar a revolução.
As propagandas para convencer o povo a participar da guerra também estão nesta mostra. Junto com os cartazes, há um trecho do romance A locomotiva — A outra face da revolução de 1932, de Afonso Schimidt que define bem a publicidade: “São comunicados sem inteligência, ou melhor, sem consideração pelo povo. As forças de Minas e Rio Grande do Sul, não podendo colaborar conosco em virtude da traição de seus chefes, tinham cruzado os braços e não davam tiro. As próprias tropas federais, levando em conta nossos democráticos propósitos, começavam a fazer causa comum com os constitucionalistas... E o povo ingênuo a acreditar. Quando alguém punha em dúvida o otimismo dos comunicados, surgia a seus olhos nas paredes e nos jornais: ‘Paulista, não acredite no que disserem, mesmo que possa ser verdade!’. E o levante, que poderia ser dominado pelas armas federais, solução até certo ponto normal, ou pelo menos concorde com as leis psicológicas que regem as grandes marés humanas, teve um final infeliz. Naufragou num mar tempestuoso de mentiras...”
Schimidt registra ainda o caos espantoso, onde o paulistano diariamente encontrava movimentos organizados com crianças que levavam à frente um estandarte com os dizeres: “Se for preciso, nós também vamos!” De forma irônica, o pesquisador deixa clara a traição ao povo paulista. Descreve: “Em 23 de outubro de 1933, como tinha sido marcado antes do levante, realizaram-se em todo o País as eleições decretadas por Getúlio Vargas. Por esta altura, muitos chefes de 32 já estavam de regresso ao Brasil. Seu exílio em Portugal, nas elegantíssimas praias de Cascais ou nos paços do Marquês de Foz, transformados num dos cabarés mais elegantes da Europa, deixara muita gente de água na boca. E Getúlio Vargas, no Catete, com seu charuto, com seu sorriso, com seu humorismo, empreendeu uma coisa diabólica: fez aleluia de cargos e posições. Diante disso, os vira-casacas, que tinham mandado a mocidade para o matadouro de uma guerra fratricida e desigual, traíram mortos e vivos, aceitando de suas mãos liberais polpudas sinecuras... E o povo paulista... Nosso povo heróico, trabalhador e digno compreendeu, afinal, a burla de que fora vítima...”

“1932: Cotidiano e Memórias da Revolução Constitucionalista” , exposição do Museu Paulista da USP, parque da Independência, s/nº , Ipiranga. De Terça a Domingo das 9h às 16h45. Ingressos: R$ 2,00, crianças até 5 anos e pessoas acima de 60 estão isentos. Todo terceiro domingo do mês, a entrada é franca



Na cidade, as marcas da revolução
Muita gente ignora, mas vários pontos de referência de São Paulo homenageiam a Revolução de 1932. No entanto, ficaram tão integrados ao cotidiano e à paisagem que a sua memória acabou se perdendo.

O campus da USP em São Paulo, por exemplo, leva o nome de Armando de Salles Oliveira — um revolucionário que, em agosto de 1933, foi nomeado interventor por Getúlio Vargas e, um ano depois, assinou o decreto da criação da Universidade de São Paulo, a primeira do País. A revolução também é lembrada na avenida e no túnel 9 de julho, antiga avenida Anhangabaú. 


Agora, o monumento mais significativo está no Parque do Ibirapuera. É o Obelisco-Mausoléu inaugurado em 1954, durante as comemorações do 4º Centenário de São Paulo. O espaço interno apresenta a arte de Galileo Emendábili e Mário Edgard Pucci. Também conta a história das batalhas através de uma exposição de fotos e documentos. Este espaço é integrado também pela avenida 23 de Maio, ligação entre o Ibirapuera e o Centro. A data lembra os confrontos nos quais morreram Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC).
Curioso lembrar também que a bandeira do Estado de São Paulo, a bandeira das treze listas, tornou-se, em 1932, um dos mais importantes símbolos da revolução. Não chegou a ser oficializada pelo governo revolucionário, nem foram estabelecidas, naquela época, normas de execução padronizadas para ela. Entretanto, seu uso foi consagrado pela tradição popular e, entre todas as outras bandeiras estaduais, a de São Paulo é a única a representar o mapa do Brasil. Foi reconhecida oficialmente em 1948. 



Cartazes tentavam despertar a solidariedade da população. Eram feitos para convencer os paulistas do heroísmo da revolução





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