terça-feira, 30 de abril de 2013

TEMA: 1932, O BRASIL TEM HERÓIS

TEMA: 1932, YES, O BRASIL TEM HERÓIS
Antonio de Andrade
          No Brasil, no Estado de São Paulo, o feriado do dia 9 de julho é uma data na qual é relembrada a Revolução Constitucionalista de 1932 feita contra o Governo "Provisório" de Getulio Vargas. Os paulistas lutaram com o objetivo de trazer a normalidade constitucional ao país. Iniciada a 9 de julho, a Revolução foi encerrada 3 meses depois, a 2 de outubro de 1932. O 9 de julho é um dia para cultuar a memória dos 135 mil soldados e voluntários paulistas (e de outros Estados) que com bravura lutaram nas trincheiras do Vale do Paraíba e outras fronteiras de São Paulo, nos vales, nos morros, nos túneis e em especial, os 830 combatentes que tombaram mortalmente, dando a sua vida e o seu sangue, pelos ideais democráticos e por um Brasil melhor.


          Quando a História do Brasil é examinada com atenção, descobre-se que em todos os momentos históricos existiram homens e mulheres que saíram da rotina da vida que levavam e despertaram para algo maior, agindo para o bem da coletividade e do país onde viviam, chegando muitos a darem a própria vida pelos ideais que os levou à luta.
        Homens e mulheres que conseguiram superar os medos da dor, da perda, do fracasso, da doença, do cansaço, do cárcere, do desterro, dos tormentos e torturas de seus inimigos. Superaram até o medo da morte e colocaram à prova as suas características pessoais, em especial o seu caráter, a coragem e o amor pelo Brasil e enfrentaram com determinação os acontecimentos históricos que viveram. Parece que tinham eliminado de seus vocabulários a palavra impossível e assim sentiram-se fortes o suficiente para perseguirem os ideais e os sonhos que os levavam à luta.
        Pouco se importaram com o sofrimento que, certamente, a luta que encetaram lhes traria, pois tinham fé num futuro melhor para o Brasil. Vislumbraram um país no porvir, um país livre, democrático, uma nação brasileira. E esse destino de cada um elevou-os como homens e como mulheres especiais na História do Brasil.
          Essas pessoas são os heróis brasileiros. A História registrou muitos deles como heróis ou heroínas, pelas suas ações consideradas heróicas pelos historiadores que registraram os fatos ou analisaram posteriormente esses fatos históricos. Mas, com certeza, na história da formação e desenvolvimento do Brasil como nação, é lógico concluir que muitos, mas muitos cidadãos anônimos contribuíram com suas ações e suas vidas, para que o Brasil chegasse ao que é hoje, um grande país, uma nação verde-amarela. Essas pessoas, anônimas ou não, em sua maioria, não são cultuadas pela História como heróis. E como seria benéfico para despertar a cidadania do povo se houvesse um dia para cultuar os heróis e heroínas brasileiros.


          Em um feriado paulista como o dia 9 de julho, ao cultuar a memória dos que lutaram nesse que foi o maior conflito militar e movimento revolucionário do Brasil no século 20, fica-se com um sentimento cívico de vazio ao refletir que o Brasil não tem o costume de cultuar os seus heróis, com raras exceções.
         E junto a esse vazio encontra-se outro sentimento de alegria ao se constatar um fato marcante: muitos dos combatentes de 1932, foram à luta por ideais democráticos, sem exigir nada em troca. Parece que estavam dando uma resposta àquela famosa frase do presidente americano John Kennedy quando ele disse, anos depois de 32: "Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas o que você está fazendo pelo seu país."


             Os bravos paulistas de 1932, homens e mulheres, 135 mil soldados ou voluntários, fizeram a sua parte pelo Brasil naquela época. Cada um que lutou, independente se nas trincheiras, nos combates nos túneis, nos morros e nos vales, ou nas ações de planejamento estratégico e logística militar, ou nas ações de apoio e retaguarda, como as mulheres que preparavam a alimentação ou atendiam aos feridos, todos, sem exceção, foram heróis, pelas suas ações de idealismo, de coragem e de luta por um Brasil melhor. Muitos foram os heróis, mas na impossibilidade de se homenagear a todos, em nome de todos eles, são lembrados alguns deles. Primeiramente Paulo Virgínio. Morador do sertão de Cunha, foi aprisionado por tropa de fuzileiros navais que se dirigiam para atacar a cidade. Interrogado sobre a localização das tropas paulistas, mesmo sob tortura ele se negou a falar. E antes de ser fuzilado, depois de ser obrigado a cavar a própria sepultura, ele gritou: - "São Paulo vence!" Paulo Virgínio perdeu a vida mas entrou na História como o herói de Cunha e da Revolução de 32. Em sua memória e de seu heroísmo, há um monumento na entrada da cidade de Cunha, na estrada para Paraty e essa rodovia que liga as cidades de Guaratinguetá-Cunha-Paraty recebeu o seu nome.

            Outros nomes de heróis da Revolução de 1932, são os dos primeiros mártires que tombaram mortalmente com os primeiros tiros disparados, dias antes do 9 de julho. No dia 23 de maio, o povo paulista protestava contra a visita do representante de Getulio à cidade, o ministro Osvaldo Aranha, e entrou em confronto na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a praça da República, com os partidários de Getulio Vargas, os membros da Legião Revolucionária e do Partido Popular Paulista. Nesse confronto, com muitos tiros de fuzil, de submetralhadora e revólveres, são atingidos mortalmente, Euclides Bueno MIRAGAIA, Antonio Américo de CAMARGO Andrade, DRÁUSIO Marcondes de Souza e Mário MARTINS de Almeida, este último gravemente ferido, morreu ao chegar ao hospital. As iniciais dos nomes destes quatro primeiros mártires formaram a sigla MMDC (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo), a organização que cuidou, durante a Revolução, da direção geral do abastecimento, da intendência, das finanças, da engenharia, da saúde, do correio militar e da mobilização de outros serviços e, após o término da Revolução, foi adotada pela Sociedade Veteranos de 1932-M.M.D.C.

        Nos registros históricos constam os nomes de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo como os quatro primeiros que tombaram mortalmente feridos no dia 23 de maio de 1932. Um pesquisador, Hely Felisberto Carneiro (médico, nascido em 1932, residente em Sorocaba, SP), em anos de pesquisa descobriu que havia mais um herói que tinha sido mortalmente ferido naquele dia de 23 de maio. Conforme suas informações, um mineiro de Muzambinho, Orlando de ALVARENGA, foi também gravemente ferido no dia 23 de maio, com um tiro de fuzil na coluna lombar que esfacelou sua medula. Socorrido, sofreu 81 dias, falecendo no dia 12 de agosto. O pesquisador agiu para consertar os registros históricos sobre 1932 e conseguiu que em setembro de 1993 a diretoria da Sociedade Veteranos de 1932 - M.M.D.C. reconhecesse a falha dos registros históricos. Assim, baseado em um estudo feito pelo Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, foi criado o "Colar da Cruz do Alvarenga e dos Heróis Anônimos".


               Como homenagem póstuma ao herói Orlando de Alvarenga, em 28 de abril de 2003 o Prefeito da cidade de Sorocaba, SP, sancionou a Lei nº 6814 designando a Rua nº 1 do Jardim Itapoã como "Orlando de Alvarenga" e em 13 de janeiro de 2004, o Governador do Estado de S.Paulo, depois que o pesquisador Hely Felisberto fez o pedido a ele, promulgou a Lei nº 11.658 designando o dia 23 de Maio como "Dia dos Heróis MMDCA" e por Decreto oficializou o "Colar da Cruz do Alvarenga e dos Heróis Anônimos".  

   
         Visando homenagear também os heróis de 32 e outras pessoas que mantêm a memória de 32, a Câmara Municipal de Sorocaba, SP criou pela Lei 7766 a Semana da Memória da Revolução Constitucionalista de 1932. Durante uma semana são feitas palestras e outros eventos e 32 personalidades recebem a MEDALHA COMBATENTES DE 32. Tel de contato 15-30119263.


         Esses são apenas alguns nomes de heróis não somente paulistas, mas heróis brasileiros, pois deram as suas vidas pelos ideais de um Brasil melhor. E a lembrança de seus nomes e de tantos outros precisa repercutir através dos tempos por todo o país, não ficando esquecidos para os brasileiros da atualidade os feitos daqueles que fizeram tudo para que houvesse, nos tempos atuais, uma nação verde-amarela melhor. As ações e vidas desses e de tantos outros brasileiros do passado contribuíram para uma nação melhor no presente. Os nomes e os restos mortais dos mártires e dos heróis de 1932 estão no Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista, no Parque do Ibirapuera na capital paulista, com seu obelisco de 77 metros. Assim, está perpetuada para outras gerações a história de 1932 e de pessoas que derramaram o próprio sangue em defesa de idéias e de ideais, de princípios em prol de um Brasil melhor. 
    E os jovens, ao constatarem os fatos de 1932, certamente não irão derramar sangue, como muitos jovens derramaram em 1932, mas lágrimas, pois irão sentir-se orgulhosos dos bravos e heróicos brasileiros. E poderão então dizer com orgulho, numa linguagem globalizada de hoje: - Yes, o Brasil tem heróis!


      * Antonio de Andrade, de Lorena, SP, escreveu o livro "1932-Os deuses estavam com sede", um romance histórico ambientado na Revolução de 1932. Seus livros e artigos são encontrados pelo site www.editora-opcao.com.br

quinta-feira, 25 de abril de 2013

CERIMÔNIA CONJUNTA PIRACICABA/SÃO PEDRO EM SOLENIDADE DIA 11/05 AO 23 DE MAIO - DIA DA JUVENTUDE CONSTITUCIONALISTA










CERIMÔNIA CONJUNTA PIRACICABA/SÃO PEDRO - AO DIA DA JUVENTUDE CONSTITUCIONALISTA: M.M.D.C.

DATA : 11 de maio de 2013, sábado

HORÁRIOS : Piracicaba às 10 horas / São Pedro às 15:30 horas

LOCAIS :
Piracicaba – Armazém da Cultura "Maria Dirce de Camargo" na Estação da Paulista (avenida Dr. Paulo de Moraes, nº 1682 - Paulista - Piracicaba/SP)
São Pedro – Museu Gustavo Teixeira (rua Joaquim Teixeira de Toledo, n° 524 - Centro - São Pedro/SP)


Solenidade em Piracicaba

10 horas – recepção e concentração no Auditório
10h20 – abertura da solenidade pelo presidente Edson Rontani Júnior / palavra aberta do coronel Mário Ventura / palavra aberta destinada às personalidades / entrega da Medalha M.M.D.C. / Palavra de representante dos homenageados / Palavra aberta aos presentes / Outras manifestações protocolares
Encerramento – entre 11h30 e 12 horas
Visita espontânea ao Monumento do Soldado Constitucionalista situado à praça José Bonifácio (a 200 metros do Museu)

Viagem a São Pedro

Almoço livre por adesão, sendo opções
- Churrascaria Gaúcha – serviços de R$ 18,00 a R$ 35,00
- Nova Iguaçu Churrascaria – 18,00 buffet de saladas e pratos quentes / R$ 25,00 o mini rodízio e buffet de saladas

Solenidade em São Pedro

15h30 – recepção e concentração
15h50 – abertura da solenidade tendo como cerimonialista Aldo Nunes / palavra do presidente do Núcleo João Francisco de Aguiar / palavra de Maria do Carmo Mendes de A. Souza (“Revolucionário José Augusto Frota Escobar”, falecido em combate) / palavra aberta do coronel Mário Ventura / palavra aberta destinada às personalidades / entrega   da Medalha M.M.D.C. / Homenagem a 09/071932/ Palavra aberta aos presentes / Outras manifestações protocolares
Encerramento – entre 17h30 e 18 horas



Homenageados convidados por Piracicaba


* ADRIANA CRISTINA SGRIGNEIRO NUNES – Major da PM
* ANNA THEREZA PRADO DE ALMEIDA CARVALHO – vice-presidente do Núcleo MMDC Piracicaba
* ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE CIRURGIÕES-DENTISTAS (APCD-Regional Piracicaba) – a receber através de sua presidente drª. Sandra Aparecida Barroso Furlan
* CESÁRIO DE CAMPOS FERRARI – historiador
* CLAYTON LOTAR ANTICO BÜRGER – Coordenador e professor da Microcamp Piracicaba
* EGYDIO JOÃO TISIANI – 2°. Tenente da PM, fundador e primeiro presidente do Núcleo MMDC de Piracicaba
* FÁBIO FERREIRA COELHO BRAGANÇA – Historiador do Departamento de História da Câmara de Vereadores
* ISCAR ANTONIO BRESSAN – Ex-combatente da Revolução de 1932
* IVANA MARIA DE FRANÇA NEGRI – Escritora
* JOÃO FRANCISCO DE AGUIAR – Presidente do Núcleo MMDC de São Pedro
* JOÃO MANOEL DOS SANTOS – Presidente da Câmara de Vereadores de Piracicaba
* JORNAL DE PIRACICABA – a receber através de seu diretor Marcelo Batuíra da Cunha Losso Pedroso
* JULIANA DE PINHO ROJAS – 1°. Tenente da Polícia Militar
* KAREN ROBERTA MORIGGI – Coordenadora do curso de pedagogia da Faculdade Anhanguera de Piracicaba
* KARINA GARDIN AMARAL – Coordenadora em Rio das Pedras da área de educação especial
* MARCELO CACHIONE – Arquiteto, urbanista e Diretor do Departamento Histórico do IPPLAP (Instituto de Pesquisas e Planejamento de Piracicaba)
* MARCELO OLIVEIRA – Presidente da Comissão Municipal de Eventos Cívicos de Piracicaba
* MARIA ANTONIETA SACHS MENDES – Diretora do Museu Prudente de Moraes
* MARIA DA GLÓRIA SILVEIRA MELLO – Presidente da Associação Amigos do Museu Prudente de Moraes
* MARIA HELENA TOLEDO SILVEIRA MELO – Presidente do Núcleo MMDC de Jaguariúna
* MÍRIS CRISTINA PARAZZI FOLSTER – Professora da Faculdade Anhanguera de Piracicaba
* PAULO JOSÉ PALOTA – Tenente Coronel da Polícia Militar
* PEDRO CRUZ – Vereador e Secretário Municipal do Desenvolvimento Econômico na gestão do prefeito Barjas Negri
* RODOLPHO HOFF JÚNIOR - Major da Reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo
* ROMEU GOMES DE OLIVEIRA – Ex-combatente da Revolução de 1932
* SILAS ROMUALDO – Capitão do Exército e Comandante da Guarda Civil Municipal de Piracicaba
* SOLANGE ZAPAROLI BARBOSA DE OLIVEIRA – Professora da Faculdade Anhanguera de Piracicaba
* TARCISIO ANGELO MASCARIM – Presidente do SIMESPI (Sindicato Patronal das Indústrias Metalúrgicas de Piracicaba) e Secretário Municipal do Desenvolvimento Econômico
* VITOR PIRES VENCOVSKY – Presidente do IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba)
* WILLIANS DE CERQUEIRA LEITE MARTINS – Capitão da Polícia Militar



Homenageados convidados por São Pedro

* PADRE ANTONIO CARLOS (Paróquia São José)
* EDSON RONTANI JÚNIOR (presidente do Núcleo MMDC Piracicaba)
* HÉLIO DONIZETE ZANATA (prefeito de São Pedro)
* JOSÉ MARIO DE BARROS – vereador de São Pedro
* JOSÉ SEPÚLVEDA
* MARCELO LUIZ AMENT CARON – Capitão da Polícia Militar São Pedro
* WALMY MODESTO – (ex-prefeito de São Pedro)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A ÚLTIMA GUERRA CIVIL


A última guerra civil
 Em 9 de julho de 1932, parte do Brasil pegava em armas para pedir eleições e uma nova constituição. O conflito, protagonizado pelo estado de São Paulo, deixou ao menos mil mortos e mobilizou combatentes por terra, ar e mar. A derrota militar dos insurgentes foi compensada por uma vitória moral. O site da VEJA resgata parte  dessa história.

SANGUE PELA LEI
Estado de São Paulo, inverno de 1932

  Em meio a um ataque inimigo, o soldado Romeu de Oliveira ouve a voz do general Bertoldo Klinger: “Salve-se quem puder!”.
O jovem salta ao chão para escapar do fogo inimigo. Francisco Honório, seu companheiro de trincheira, faz o mesmo. Mas é atingido mortalmente na cabeça por uma bala de fuzil. Não muito longe dali, Iscar Bressan Mantém a cautela para não se expor ao fogo inimigo em meio a uma ofensiva de tropas federais. Ainda assim, recebe um tiro que lhe atravessa o capacete e fere, de raspão, a parte frontal da cabeça. O sangue escorre pelo rosto. Iscar, sem ter para onde fugir, continua a disparar contra o exército adversário. Em Franca, durante uma ofensiva aérea do inimigo, Wady Calixto vê um colega caído em uma trincheira próxima à sua. Desobedecendo ordens do comandante, deixa a zona segura para alcançar o companheiro e arrastá-lo para fora da área sob ataque. Já não adiantava: o amigo de infância estava morto. E Calixto acabou punido com quatro dias de prisão.
Os relatos dramáticos se encaixariam bem em um filme de guerra. São reais. Ocorreram na região mais rica e desenvolvida do Brasil há apenas uma geração. Os três jovens não eram militares de carreira, nem militantes políticos profissionais. Ainda assim, apresentaram-se para pegar em armas e pedir o retorno da lei a um Brasil subjugado por uma ditadura, Romeu de Oliveira, Wady Calixto e Iscar Bressan poderiam ter morrido antes dos 20 anos de idade. Foram recompensados com uma vida longa o bastante para assistir o 80º Aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. Curta demais, porém, para esquecer os momentos intensos de combates.
 A guerra civil que opôs o estado de São Paulo, reforçado por tropas avulsas de Mato Grosso, ao governo federal de Getúlio Vargas durou três meses, envolveu mais de 100.000 combatentes e gerou ao menos mil baixas – mais do que a soma do número de brasileiros mortos durante a Segunda Guerra Mundial e a ditadura militar. No centro da disputa, a lei: os paulistas exigiam do ditador Getúlio Vargas a convocação de uma assembleia constituinte e a retomada da normalidade democrática, interrompida pela Revolução de 1930.


O MOVIMENTO CIVIL
 Pouco antes de tomar o poder na Revolução de 1930, Getúlio Vargas fez dois comícios: um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, onde foi aclamado.
Até então, a população paulista não nutria qualquer antipatia especial pelo homem que derrubou a República Velha.
O sentimento de insatisfação da população paulista com o regime vigente começou a ser alimentado no seguinte, quando Vargas nomeou a pernambucano João Alberto Lins de Barros, que nunca havia morado em São Paulo, para governar o estado. O líder gaúcho também descumpriu a promessa de convocar eleições para uma assembleia constituinte ainda em 1931. É impreciso dizer que o levante paulista foi motivado apenas pelo antigetulismo. A insatisfação com o regime que comandava o país se replicava também no cotidiano: o comportamento abusivo dos integrantes da Legião Revolucionária, braço militante do regime em vigor, ultrajava a população de São Paulo.


Os alunos da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco tiveram papel importante na mobilização da sociedade. Aos poucos os grandes comícios pedindo mudanças se tornaram frequentes e o clima político ganhou elementos de tensão.
Os paulistas eram o principal, mas não o único foco pela convocação de uma assembleia constituinte com eleições diretas. O levante tornou-se inevitável em 23 de maio.
Após um megacomício na Praça da República, na capital paulista, manifestantes fizeram menção de invadir a sede da Legião Revolucionária, apoiador do regime varguista. Foram repelidos a tiros de metralhadoras.
Quatro jovens morreram na hora: Murilo Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza e Américo Camargo Andrade.
Do nome dos mortos surgiu a sigla MMDC – Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Uma quinta vítima, Orlando de Oliveira Alvarenga, morreu no dia 12 de agosto.
Estava instaurado o conflito. A guerra eclodia em 9 de julho de 1932.

VETERANOS
 Os sobreviventes do movimento constitucionalista são poucos: poucas dezenas em condições razoáveis de saúde. Os ex-combatentes, todos próximos dos 100 anos de idade, trazem ainda fragmentos de memória que permitem um vislumbre do que foi o movimento constitucionalista. Diferentemente dos militares de esquerda que, nos anos 60 e 70, se opuseram ao regime militar, recebem uma pensão quase simbólica ...por mês.
O site da VEJA ouviu cinco protagonistas – e um antagonista – da Revolução de 1932.
“Fiquei guardando a divisa com o Rio de Janeiro para não deixar a ditadura entrar em São Paulo. Levei um tiro na cabeça e ainda tenho a marca. A bala furou o capacete e pegou de raspão. O sangue corria, mas eu continuei atirando. Não tinha para onde correr. Era deitar no chão e atirar. Muitas vezes, eu ficava dias sem comida. Dormia no chão mesmo, na trincheira. Nós nos escondíamos no mato para o avião “Vermelhinho” não ver. Vi gente morrer lembrando o pai e a mãe. Quando morria um soldado e ele estava com roupa boa, pegávamos a roupa dele. Fazer o quê? O pessoal punha o morto na carroça e ia enterrar por lá mesmo”.


Iscar Antonio Bressan, 100 anos. Alistou-se como voluntário em Piracicaba

“Eu não gostava de Getúlio Vargas. Ele era muito orgulhoso e autoritário. Eu queria ir para a linha de frente participar dos combates. Mas era menor de idade. Trabalhei no almoxarifado servindo armas e munição. E ajudava a fazer arroz, feijão, batata e carne seca. Eu subia no caminhão e o comandante falava para eu descer de lá. Se eu pudesse pegar em armas, atirava. Tenho orgulho de ter participado da Revolução”.


Oswaldo Raphael Santiago, 98 anos. Alistou-se em Itapetininga. Era voluntário. Combateu na Frente Sul.

“Eu era motorista do batalhão. Fui levar o capitão na frente de Campo Bonito e ele me segurou lá. E fiquei até o fim da Revolução. Eu baldeava bala, soldado. Não deixava faltar nada. Fiquei a revolução inteirinha no Rio das Almas. Eu ia levar bala para eles na trincheira. Ficava o dia inteiro: vai pra lá, vem pra cá. Qualquer coisinha que surgia, eu corria para levar os soldados no caminhão. Carreguei bastante soldado ferido. Mortos também. Mas eu não tinha medo”.


Francisco Trindade, 99 anos. Era tenente da Força Pública de São Paulo em Itapetininga.

“Eu estava fazendo o tiro de guerra e me engajei no trabalho limeirense, mas fui dispensado para o Tito de Guerra assumir o comando da retaguarda. Os homens mais velhos estavam engajados no batalhão. A cidade toda se engajou. Homens, mulheres e crianças. Foi um momento unânime, sem nenhum constrangimento. Os voluntários foram autorizados a participar. As fábricas se transformaram em fábricas de material bélico. A revolução terminou com um armistício. Getúlio pediu trégua e São Paulo concordou. E os objetivos foram atingidos plenamente. Isso valeu a pena. Era vontade de ter um regime legal dentro dos limites de constituição”.


Paulo de Barros de Camargo, 96 anos. Morreu no dia 11/10/2012 em Campinas.

“Fui para a revolução por livre e espontânea vontade. Senão as moças falavam assim: “Vista saia!”. E eu não queria vestir saia.
Quando cheguei lá, logo de cara fomos buscar descendentes de alemães que haviam ido reclamar um soldado que havia morrido. Uma vez, na trincheira, o general Bertoldo Klinger gritou “Salve-se quem puder!”. Quando meu colega foi pular da trincheira ele recebeu uma bala. Eu pulei e ele também pulou. Mas infelizmente ele morreu. A tristeza foi quando chegamos de volta a Piracicaba. Havia aqueles que não voltavam. Aí é que foi aquela choradeira: chegou o trem e o marido, o irmão, o filho não apareceu.
Acho que se a revolução tivesse conseguido derrubar o Getúlio Vargas, teria sido melhor para o Brasil. Mas, hoje pouca gente se lembra do que aconteceu”.


Romeu Gomes de Oliveira, 97 anos. Apresentou-se como voluntário em Piracicaba e foi encaminhado para a divisa com Minas Gerais.

Obs.: As fotos dos Veteranos acima bem como suas entrevistas através de vídeos  sobre a participação na Revolução de 1932 poderão ser visualizadas no link abaixo – VETERANOS – VÍDEOS – Veteranos de Piracicaba – Voluntários da cidade de Limeira e Participação da Cidade de Itapetininga.

O CAMPO DE BATALHA


O ESPAÇO DE GUERRA
 O conflito de 1932 ocorreu em meio ao conturbado período entreguerra. Os combates tinham características militares da luta de trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a oposição entre duas visões de mundo – uma autoritária e centralizadora, a outra democrática e liberal – antecipou a disputa ideológica que ocorreria a partir de 1939, na Segunda Guerra.
As estatísticas mais modestas apontam que os combatentes envolveram diretamente 85.000 soldados federais e 30.000 soldados paulistas – dos quais um terço eram voluntários.
A lista de soldados inclui figuras como célebre futebolista Arthur Friedenreich, os escritores Orígenes Lessa e Guilherme de Almeida e o então diretor do jornal O Estado de São Paulo, Julio de Mesquita Filho.
Foram criados batalhões de todo o tipo: de negros, índios, esportistas, operários e até religiosos – como a Congregação Mariana das Trincheiras. A Força Pública, atual Polícia Militar, somou forças com contingentes do Exército na coordenação militar das operações.
A liderança das tropas era do general Bertoldo Klinger vindo de Mato Grosso. Outro nome importante das fileiras constitucionalistas era o do general Euclides Figueiredo (também forasteiro, um carioca pai do general João Batista de Figueiredo). O general Isidoro Dias Lopes, integrante da Força Pública, completava a cadeia principal do comando.
A mobilização dos paulistas foi intensa. A população do estado ofereceu sua mão-de-obra e seus bens para sustentar a luta constitucionalista. Com os homens na frente de batalha, mulheres assumiram postos de trabalho essenciais e dispunham-se a costurar mantas para os soldados.
Os estudantes do Largo de São Francisco e de então Escola Politécnica, hoje parte da Universidade de São Paulo, engrossaram as fileiras do exército constitucionalista. Uma bem sucedida campanha de coleta de ouro angariou recursos para custear combates. Não foram poucos os casais que doaram as próprias alianças para a causa.
Em 20 de agosto, após 40 dias de combates, o soldado Caetano Toschi escreveu uma carta à mulher: “O entusiasmo das nossas tropas é formidável e cada vez mais tem aumentado o movimento da população paulista em prol da nossa causa. Ninguém aqui nas fronteiras conhece o medo. Quando sibilam algumas balas inimigas sobre nós, os nossos soldados de pé, nas trincheiras, respondem com gritos de escárnio e gestos de provocação...”.
A tentativa de derrubada de Getúlio Vargas fracassou devido ao isolamento militar de São Paulo, agravado pela carência de material bélico e à falta de coordenação do movimento insurgente. Em poucos dias, as tropas constitucionalistas, em desvantagem numérica, se mantiveram em uma exaustiva guerra de trincheiras. O armistício viria em 2 de outubro.
O fracasso de São Paulo, militarmente cercado e sem condições de avançar, foi seguido de uma vitória moral: a assembleia constituinte acabou convocada para o ano seguinte e elaborou a Carta Magna de 1934 que, por exemplo, garantiu o direito ao voto feminino. O objetivo político do levante foi alcançado.

HERANÇA
 Durante décadas, a Revolução de 1932 foi tratada por historiadores como mera reação de oligarquias que haviam perdido o poder na ruptura comandada por Getúlio Vargas dois anos antes. A versão oficial criada pelo getulismo, aliada a uma antiquada interpretação marxista da História, relegou o movimento à categoria de manobra da elite cafeeira. Ó agora, oito décadas depois, o episódio começa a ser visto pelos historiadores com suas cores reais.
Na turbulenta história brasileira do século 20,  não faltou revoltas, insurgências, golpes bem sucedidos ou fracassados – quase todos liderados por militares. Raras são, entretanto, as mobilizações catalisadas por populares e com bandeiras claramente democráticas.
“A revolução de 1932 é o grande movimento da história democrática do século 20 brasileiro”, diz o professor Marco Antonio Villa, autor de um livro sobre o assunto e principal nome grupo “revisionista” que busca retificar a visão sobre o movimento constitucionalista.
Villa desqualifica confirmações que o episódio foi deflagrado pela elite cafeeira: “É o contrário: essa oligarquia depois se aliou a Getúlio Vargas na ditadura do Estado Novo. O movimento constitucionalista era popular”.

Professor da UFSCAR Marco Antonio Villa

O professor de História Antonio José Barbosa da Universidade de Brasília, concorda: “Essa nova interpretação faz muito sentido. Prevaleceu durante muito tempo o ponto de vista do poder federal, que tinha o interesse de desqualificar o movimento armado. Mas é indiscutível que em 1932 existia uma manifestação pelo retorno das práticas democráticas”, afirma.
A retomada do interesse pela revolta constitucionalista não foi suficiente, ainda, para garantir a preservação adequada do movimento. Não há um museu realmente dedicado ao evento. (...)
A Revolução de 1932 se aproxima do limiar temporal em que a história passará a ser contada apenas por terceiros, e não pelos personagens. Quando se calar a voz do último veterano, restará aos historiadores o trabalho de restabelecer os fatos do período. É um atento saber que: 80 anos depois, a História começa a fazer justiça aos bravos da lei.
 http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/revolucao-constitucionalista-de-1932 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O piracicabano PAULO DE MORAES BARROS: um dos líderes da revolta de 1932


Paulo de Moraes Barros


Paulo de Moraes Barros (Piracicaba, 16 de junho de 1866 - São Paulo, 15 de dezembro de 1940) foi um médico sanitarista e político brasileiro.
Durante a República Velha foi encarregado da Secretaria dos Negócios da Agricultura, Obras públicas e Comércio do Estado de São Paulo.
Exerceu por cerca de vinte anos a presidência da câmara municipal, tendo sido deputado federal e senador. Neste último cargo, quando em 1937 implantou-se o Estado Novo no país, foi exilado por Getúlio Vargas.
Por nomeação do grande sanitarista Emílio Ribas, exerceu a função de fiscal de higiene em Piracicaba. Quando o estado de São Paulo foi assolado pela epidemia de febre amarela, seu trabalho incansável e profícuo conseguiu manter a cidade livre da epidemia.
Além de ter exercido a medicina, foi um destacado produtor de café na fazenda Pau Dalho e, num trabalho de pioneirismo, processou o cruzamento do gado devon, visando o melhoramento do rebanho bovino.
Foi secretário da Fazenda durante a Revolução de 1932, e também um dos fundadores do Partido Democrático. Sua atuação como militante político foi quase sempre na oposição.

Paulo de Moraes Barros
Fonte: Memorial de Piracicaba 2002/03, de Cecílio Elias Netto
Autoria: Beatriz Elias*

Ele foi o grande herdeiro de Prudente e Manoel de Moraes Barros. Teve influência e respeito nacionais.


            Estar entre os Moraes Barros certamente já trazia, a cada um dos descendentes de Prudente e Manoel de Moraes Barros, quase que uma herança política, de liderança e de compromissos. Mas, Paulo de Moraes Barros, sobrinho de Prudente e um dos filhos do senador Manoel de Moraes Barros e de Maria Inês de Moraes Barros, mais do que a todos os outros, tornou-se o principal herdeiro político da família, assumindo até mesmo a presidência do Partido Republicano.
            Nascido em 16 de junho de 1866, em Piracicaba, Paulo formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e como médico se tornou mais conhecido, embora já atuasse na vida pública. Atuando na área da saúde, em 1891 foi nomeado intendente municipal de Piracicaba por Cerqueira César, então na presidência da Província. De 1896 a 1913, foi vereador, assumindo por várias vezes a presidência da Câmara. Foi eleito deputado e senador, e ainda secretário da Agricultura, de Obras e Viação, da Fazenda, durante os governos Rodrigues Alves e Pedro de Toledo.
            Em 1912, ao ser nomeado por Rodrigues Alves, foi descrito pelo jornal "O Estado de São Paulo", como um político cem por cento e um técnico em finanças e agricultura. O artigo garantia que "transformou aquela cidade numa das mais belas de nosso Estado e Piracicaba deu o exemplo,que supomos único no Brasil, de uma administração que consegue executar melhoramentos e apresentar saldos sucessivos no seu orçamentos".
            Na prática, Paulo de Moraes Barros, em apenas oito meses, com severa economia, remodelou a administração municipal, pagou todas as dívidas e, em 1892, entregou, aos primeiros vereadores significativo saldo nos cofres municipais. Isso não o impediu de atuar como médico, iniciando a vacinação contra varíola, na cidade, ao final do século XIX. Acumulando o cargo de inspetor sanitário com o de presidente da Câmara, dividiu a cidade em distritos quando a peste bubônica chegou ao Estado, formando comissões populares e equipes de limpeza voluntárias.
            Ao avaliar o trabalho do Partido Republicano, em homenagem que lhe foi prestada em 1910, Paulo admitiu o quanto seu trabalho fora produtivo: a população quase duplicara, o cemitério estava reconstruído, praças e jardins estavam cuidados, o Itapeva -"antes focos de miasmas e embaraço à visão até dos pedestres" - estava saneado e pontes de alvenaria permitiam o trânsito de pedestres, a iluminação a querosene fora substituída por iluminação elétrica, houve a construção do Hospital do Isolamento, a rede de esgotos foi instalada.
            O sentido da prática política que o inspirava foi manifestado no mesmo discurso: " e na partilha desses benefícios tereis sido porventura vós (os do Partido Republicano) os melhores aquinhoados? Não, meus senhores, deles se beneficiaram os amigos como os adversários, os brancos como os pretos, o nacional, como o estrangeiro, os poderosos como os humildes; a partilha foi equitativa como tudo que se baseia nos sólidos preceitos do justo e do honesto. O quinhão que vos coube e esse, verdadeiro quinhão de honra, é o da satisfação do dever cumprido, é o da tranqüilidade de uma consciência pura e simples".
            Paulo de Moraes Barros não deixou, entretanto, de enfrentar os reveses próprios da política. Em 1930, apoiou a aliança com Getúlio Vargas, tendo sido nomeado por este, por alguns dias, Ministro da Viação e, interinamente, da Agricultura.  Mas os paulistas romperam com Getúlio e aconteceu a Revolução Constitucionalista de 1932. Tendo liderado a revolta e estando entre os paulistas derrotados - ao lado de Pedro de Toledo, Waldemar Ferreira, Rodrigues Alves Sobrinho, entre outros - Paulo de Moraes Barros enfrentou o exílio, permanecendo na Europa por um ano.


Na foto: General Bertholdo Klinger, Paulo de Moraes Barros, Waldemar Ferreira e Paulo Arantes

            Em Berlim, Paulo já vivera anos antes, quando, em busca de recursos médicos para enfrentar a doença que acabaria por matar sua primeira esposa, Elisa de Salles. (Casou-se, em segundas núpcias, com Maria Luísa Quirino dos Santos).  Como representante do governo federal, ele viajara pelo mundo, participando de congressos na área agrícola na Áustria, Itália, Egito. Justamente por essa familiaridade com as sociedade mais avançadas e com os mais recentes progressos tecnológicos, coube a ele possuir o primeiro automóvel que circulou em Piracicaba, cujo motorista protegia-se com uma máscara.
            Morreu em 15 de dezembro de 1940.