sexta-feira, 12 de abril de 2013

A ÚLTIMA GUERRA CIVIL


A última guerra civil
 Em 9 de julho de 1932, parte do Brasil pegava em armas para pedir eleições e uma nova constituição. O conflito, protagonizado pelo estado de São Paulo, deixou ao menos mil mortos e mobilizou combatentes por terra, ar e mar. A derrota militar dos insurgentes foi compensada por uma vitória moral. O site da VEJA resgata parte  dessa história.

SANGUE PELA LEI
Estado de São Paulo, inverno de 1932

  Em meio a um ataque inimigo, o soldado Romeu de Oliveira ouve a voz do general Bertoldo Klinger: “Salve-se quem puder!”.
O jovem salta ao chão para escapar do fogo inimigo. Francisco Honório, seu companheiro de trincheira, faz o mesmo. Mas é atingido mortalmente na cabeça por uma bala de fuzil. Não muito longe dali, Iscar Bressan Mantém a cautela para não se expor ao fogo inimigo em meio a uma ofensiva de tropas federais. Ainda assim, recebe um tiro que lhe atravessa o capacete e fere, de raspão, a parte frontal da cabeça. O sangue escorre pelo rosto. Iscar, sem ter para onde fugir, continua a disparar contra o exército adversário. Em Franca, durante uma ofensiva aérea do inimigo, Wady Calixto vê um colega caído em uma trincheira próxima à sua. Desobedecendo ordens do comandante, deixa a zona segura para alcançar o companheiro e arrastá-lo para fora da área sob ataque. Já não adiantava: o amigo de infância estava morto. E Calixto acabou punido com quatro dias de prisão.
Os relatos dramáticos se encaixariam bem em um filme de guerra. São reais. Ocorreram na região mais rica e desenvolvida do Brasil há apenas uma geração. Os três jovens não eram militares de carreira, nem militantes políticos profissionais. Ainda assim, apresentaram-se para pegar em armas e pedir o retorno da lei a um Brasil subjugado por uma ditadura, Romeu de Oliveira, Wady Calixto e Iscar Bressan poderiam ter morrido antes dos 20 anos de idade. Foram recompensados com uma vida longa o bastante para assistir o 80º Aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. Curta demais, porém, para esquecer os momentos intensos de combates.
 A guerra civil que opôs o estado de São Paulo, reforçado por tropas avulsas de Mato Grosso, ao governo federal de Getúlio Vargas durou três meses, envolveu mais de 100.000 combatentes e gerou ao menos mil baixas – mais do que a soma do número de brasileiros mortos durante a Segunda Guerra Mundial e a ditadura militar. No centro da disputa, a lei: os paulistas exigiam do ditador Getúlio Vargas a convocação de uma assembleia constituinte e a retomada da normalidade democrática, interrompida pela Revolução de 1930.


O MOVIMENTO CIVIL
 Pouco antes de tomar o poder na Revolução de 1930, Getúlio Vargas fez dois comícios: um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, onde foi aclamado.
Até então, a população paulista não nutria qualquer antipatia especial pelo homem que derrubou a República Velha.
O sentimento de insatisfação da população paulista com o regime vigente começou a ser alimentado no seguinte, quando Vargas nomeou a pernambucano João Alberto Lins de Barros, que nunca havia morado em São Paulo, para governar o estado. O líder gaúcho também descumpriu a promessa de convocar eleições para uma assembleia constituinte ainda em 1931. É impreciso dizer que o levante paulista foi motivado apenas pelo antigetulismo. A insatisfação com o regime que comandava o país se replicava também no cotidiano: o comportamento abusivo dos integrantes da Legião Revolucionária, braço militante do regime em vigor, ultrajava a população de São Paulo.


Os alunos da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco tiveram papel importante na mobilização da sociedade. Aos poucos os grandes comícios pedindo mudanças se tornaram frequentes e o clima político ganhou elementos de tensão.
Os paulistas eram o principal, mas não o único foco pela convocação de uma assembleia constituinte com eleições diretas. O levante tornou-se inevitável em 23 de maio.
Após um megacomício na Praça da República, na capital paulista, manifestantes fizeram menção de invadir a sede da Legião Revolucionária, apoiador do regime varguista. Foram repelidos a tiros de metralhadoras.
Quatro jovens morreram na hora: Murilo Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza e Américo Camargo Andrade.
Do nome dos mortos surgiu a sigla MMDC – Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Uma quinta vítima, Orlando de Oliveira Alvarenga, morreu no dia 12 de agosto.
Estava instaurado o conflito. A guerra eclodia em 9 de julho de 1932.

VETERANOS
 Os sobreviventes do movimento constitucionalista são poucos: poucas dezenas em condições razoáveis de saúde. Os ex-combatentes, todos próximos dos 100 anos de idade, trazem ainda fragmentos de memória que permitem um vislumbre do que foi o movimento constitucionalista. Diferentemente dos militares de esquerda que, nos anos 60 e 70, se opuseram ao regime militar, recebem uma pensão quase simbólica ...por mês.
O site da VEJA ouviu cinco protagonistas – e um antagonista – da Revolução de 1932.
“Fiquei guardando a divisa com o Rio de Janeiro para não deixar a ditadura entrar em São Paulo. Levei um tiro na cabeça e ainda tenho a marca. A bala furou o capacete e pegou de raspão. O sangue corria, mas eu continuei atirando. Não tinha para onde correr. Era deitar no chão e atirar. Muitas vezes, eu ficava dias sem comida. Dormia no chão mesmo, na trincheira. Nós nos escondíamos no mato para o avião “Vermelhinho” não ver. Vi gente morrer lembrando o pai e a mãe. Quando morria um soldado e ele estava com roupa boa, pegávamos a roupa dele. Fazer o quê? O pessoal punha o morto na carroça e ia enterrar por lá mesmo”.


Iscar Antonio Bressan, 100 anos. Alistou-se como voluntário em Piracicaba

“Eu não gostava de Getúlio Vargas. Ele era muito orgulhoso e autoritário. Eu queria ir para a linha de frente participar dos combates. Mas era menor de idade. Trabalhei no almoxarifado servindo armas e munição. E ajudava a fazer arroz, feijão, batata e carne seca. Eu subia no caminhão e o comandante falava para eu descer de lá. Se eu pudesse pegar em armas, atirava. Tenho orgulho de ter participado da Revolução”.


Oswaldo Raphael Santiago, 98 anos. Alistou-se em Itapetininga. Era voluntário. Combateu na Frente Sul.

“Eu era motorista do batalhão. Fui levar o capitão na frente de Campo Bonito e ele me segurou lá. E fiquei até o fim da Revolução. Eu baldeava bala, soldado. Não deixava faltar nada. Fiquei a revolução inteirinha no Rio das Almas. Eu ia levar bala para eles na trincheira. Ficava o dia inteiro: vai pra lá, vem pra cá. Qualquer coisinha que surgia, eu corria para levar os soldados no caminhão. Carreguei bastante soldado ferido. Mortos também. Mas eu não tinha medo”.


Francisco Trindade, 99 anos. Era tenente da Força Pública de São Paulo em Itapetininga.

“Eu estava fazendo o tiro de guerra e me engajei no trabalho limeirense, mas fui dispensado para o Tito de Guerra assumir o comando da retaguarda. Os homens mais velhos estavam engajados no batalhão. A cidade toda se engajou. Homens, mulheres e crianças. Foi um momento unânime, sem nenhum constrangimento. Os voluntários foram autorizados a participar. As fábricas se transformaram em fábricas de material bélico. A revolução terminou com um armistício. Getúlio pediu trégua e São Paulo concordou. E os objetivos foram atingidos plenamente. Isso valeu a pena. Era vontade de ter um regime legal dentro dos limites de constituição”.


Paulo de Barros de Camargo, 96 anos. Morreu no dia 11/10/2012 em Campinas.

“Fui para a revolução por livre e espontânea vontade. Senão as moças falavam assim: “Vista saia!”. E eu não queria vestir saia.
Quando cheguei lá, logo de cara fomos buscar descendentes de alemães que haviam ido reclamar um soldado que havia morrido. Uma vez, na trincheira, o general Bertoldo Klinger gritou “Salve-se quem puder!”. Quando meu colega foi pular da trincheira ele recebeu uma bala. Eu pulei e ele também pulou. Mas infelizmente ele morreu. A tristeza foi quando chegamos de volta a Piracicaba. Havia aqueles que não voltavam. Aí é que foi aquela choradeira: chegou o trem e o marido, o irmão, o filho não apareceu.
Acho que se a revolução tivesse conseguido derrubar o Getúlio Vargas, teria sido melhor para o Brasil. Mas, hoje pouca gente se lembra do que aconteceu”.


Romeu Gomes de Oliveira, 97 anos. Apresentou-se como voluntário em Piracicaba e foi encaminhado para a divisa com Minas Gerais.

Obs.: As fotos dos Veteranos acima bem como suas entrevistas através de vídeos  sobre a participação na Revolução de 1932 poderão ser visualizadas no link abaixo – VETERANOS – VÍDEOS – Veteranos de Piracicaba – Voluntários da cidade de Limeira e Participação da Cidade de Itapetininga.

O CAMPO DE BATALHA


O ESPAÇO DE GUERRA
 O conflito de 1932 ocorreu em meio ao conturbado período entreguerra. Os combates tinham características militares da luta de trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a oposição entre duas visões de mundo – uma autoritária e centralizadora, a outra democrática e liberal – antecipou a disputa ideológica que ocorreria a partir de 1939, na Segunda Guerra.
As estatísticas mais modestas apontam que os combatentes envolveram diretamente 85.000 soldados federais e 30.000 soldados paulistas – dos quais um terço eram voluntários.
A lista de soldados inclui figuras como célebre futebolista Arthur Friedenreich, os escritores Orígenes Lessa e Guilherme de Almeida e o então diretor do jornal O Estado de São Paulo, Julio de Mesquita Filho.
Foram criados batalhões de todo o tipo: de negros, índios, esportistas, operários e até religiosos – como a Congregação Mariana das Trincheiras. A Força Pública, atual Polícia Militar, somou forças com contingentes do Exército na coordenação militar das operações.
A liderança das tropas era do general Bertoldo Klinger vindo de Mato Grosso. Outro nome importante das fileiras constitucionalistas era o do general Euclides Figueiredo (também forasteiro, um carioca pai do general João Batista de Figueiredo). O general Isidoro Dias Lopes, integrante da Força Pública, completava a cadeia principal do comando.
A mobilização dos paulistas foi intensa. A população do estado ofereceu sua mão-de-obra e seus bens para sustentar a luta constitucionalista. Com os homens na frente de batalha, mulheres assumiram postos de trabalho essenciais e dispunham-se a costurar mantas para os soldados.
Os estudantes do Largo de São Francisco e de então Escola Politécnica, hoje parte da Universidade de São Paulo, engrossaram as fileiras do exército constitucionalista. Uma bem sucedida campanha de coleta de ouro angariou recursos para custear combates. Não foram poucos os casais que doaram as próprias alianças para a causa.
Em 20 de agosto, após 40 dias de combates, o soldado Caetano Toschi escreveu uma carta à mulher: “O entusiasmo das nossas tropas é formidável e cada vez mais tem aumentado o movimento da população paulista em prol da nossa causa. Ninguém aqui nas fronteiras conhece o medo. Quando sibilam algumas balas inimigas sobre nós, os nossos soldados de pé, nas trincheiras, respondem com gritos de escárnio e gestos de provocação...”.
A tentativa de derrubada de Getúlio Vargas fracassou devido ao isolamento militar de São Paulo, agravado pela carência de material bélico e à falta de coordenação do movimento insurgente. Em poucos dias, as tropas constitucionalistas, em desvantagem numérica, se mantiveram em uma exaustiva guerra de trincheiras. O armistício viria em 2 de outubro.
O fracasso de São Paulo, militarmente cercado e sem condições de avançar, foi seguido de uma vitória moral: a assembleia constituinte acabou convocada para o ano seguinte e elaborou a Carta Magna de 1934 que, por exemplo, garantiu o direito ao voto feminino. O objetivo político do levante foi alcançado.

HERANÇA
 Durante décadas, a Revolução de 1932 foi tratada por historiadores como mera reação de oligarquias que haviam perdido o poder na ruptura comandada por Getúlio Vargas dois anos antes. A versão oficial criada pelo getulismo, aliada a uma antiquada interpretação marxista da História, relegou o movimento à categoria de manobra da elite cafeeira. Ó agora, oito décadas depois, o episódio começa a ser visto pelos historiadores com suas cores reais.
Na turbulenta história brasileira do século 20,  não faltou revoltas, insurgências, golpes bem sucedidos ou fracassados – quase todos liderados por militares. Raras são, entretanto, as mobilizações catalisadas por populares e com bandeiras claramente democráticas.
“A revolução de 1932 é o grande movimento da história democrática do século 20 brasileiro”, diz o professor Marco Antonio Villa, autor de um livro sobre o assunto e principal nome grupo “revisionista” que busca retificar a visão sobre o movimento constitucionalista.
Villa desqualifica confirmações que o episódio foi deflagrado pela elite cafeeira: “É o contrário: essa oligarquia depois se aliou a Getúlio Vargas na ditadura do Estado Novo. O movimento constitucionalista era popular”.

Professor da UFSCAR Marco Antonio Villa

O professor de História Antonio José Barbosa da Universidade de Brasília, concorda: “Essa nova interpretação faz muito sentido. Prevaleceu durante muito tempo o ponto de vista do poder federal, que tinha o interesse de desqualificar o movimento armado. Mas é indiscutível que em 1932 existia uma manifestação pelo retorno das práticas democráticas”, afirma.
A retomada do interesse pela revolta constitucionalista não foi suficiente, ainda, para garantir a preservação adequada do movimento. Não há um museu realmente dedicado ao evento. (...)
A Revolução de 1932 se aproxima do limiar temporal em que a história passará a ser contada apenas por terceiros, e não pelos personagens. Quando se calar a voz do último veterano, restará aos historiadores o trabalho de restabelecer os fatos do período. É um atento saber que: 80 anos depois, a História começa a fazer justiça aos bravos da lei.
 http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/revolucao-constitucionalista-de-1932 

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