terça-feira, 27 de março de 2012

NOTÍCIAS DO CAPACETE DE AÇO E PARA AS FAMÍLIAS DOS HERÓIS DA FORÇA PÚBLICA NA REVOLUÇÃO DE 32

COBERTAS DE PANO PARA CAPACETES

  O Departamento do Capacete de Aço da Associação Comercial de São Paulo está distribuindo aos soldados constitucionalistas por intermédio do Serviço de Abastecimento das Tropas em Operações, cobertas de pano para os capacetes de aço.
  Adaptando-se facilmente a qualquer dos três tipos de capacetes até agora fabricados, tais cobertas evitam que o capacete brilhe e se aqueça ao sol.
  Ficam, assim abolidos dois inconvenientes, aliás facilmente removíveis, que os capacetes apresentam:  reluzindo ao sol e ao luar, indicavam a localização dos defensores da lei; e, expostos à soalheira durante horas, se aqueciam, molestando os soldados, que se viam por isso obrigados a besuntá-los de gordura e cobri-los de poeira ou terra.
  Com o uso das cobertas de pano, desaparecem os dois únicos inconvenientes que apresentavam os capacetes de aço, tão justamente estimados pelos nossos bravos soldados.

1.520:218$800 PARA 101.347 CAPACETES DE AÇO

  A subscrição aberta pela Associação Comercial de São Paulo e pelo M.M.D.C., para a compra de capacetes de aço destinados aos soldados dos exércitos constitucionalistas, já se eleva a 1520:218$800 correspondentes ao preço de 101.347 capacetes.
(Dos Jornais de 12-9-32)

TERRAS PARA AS FAMÍLIAS DOS HERÓIS DA FORÇA PÚBLICA

  O Instituto de Assistência aos Órfãos da Revolução recebeu ontem, por intermédio do sr. governador Pedro de Toledo a seguinte carta transferindo ao << I. A. O. >>  a missão de diligenciar para a posse e destinos de mil alqueires de terras do município de Tanabi:

  "Senhor presidente do " I. A. O. ".

  Em nome do senhor governador do Estado, tenho a honra de transmitir-vos, para as providências que se fizerem necessárias a inclusa carta em que o sr. João Baptista Novaes, residente em Jaboticabal, faz doação ao Estado de mil alqueires de terras, situadas no município de Tanabi, afim de serem distribuídas entre as famílias dos heróis da Força Pública do Estado tombados no campo de honra.

  Sirvo-me do ensejo para reiterar-vos os protestos de minha mais alta estima e distinta consideração".


quarta-feira, 21 de março de 2012

OS PRIMEIROS COMBATENTES DE 32 A MORREREM PELO IDEALISMO: MMDC

  M. M. D. C.


Jornal "O Estado de São Paulo" (original) de 25 de agosto de 1932 trazendo a notícia dos primeiros paulistas que gloriosamente tombaram pela causa Constitucionalista do Brasil.

  23 de Maio de 1932! A cidade estava eletrizada. Sentia-se, na estranha magnificência daquela tarde de sol, que uma força nova palpitava, animando todos os corações para algum inédito cometimento. Os olhares de todos se cruzavam em íntimas interrogações. Nas sacadas rostos ansiosos prescrutavam, de instante a instante, o borborinho das ruas. Os homens se procuravam. Uma vontade mútua de servir os aproximava. Trocavam-se impressões.
 Dezessete horas...  Dezessete e meia...   Dezoito horas...   Talvez um pouco mais, talvez...   Uma voz límpida e forte entoou as primeiras notas do Hino Brasileiro. Foi o rastilho. Outras se fizeram ouvir. Milhares de vozes acompanharam o cantor anônimo. O povo falava enfim. A multidão, irresistivelmente, caminhou para a praça que tem sido o coração cívico de São Paulo - a Praça do Patriarca, em cujo lampadário parece brilhar o espírito e a coragem de José Bonifácio.
 Na exaltação do instante magnífico, em que se rompia o amalgama triturante da nossa liberdade, os manifestantes não mediram o seu entusiasmo e atiraram-se, com a simplicidade dos heróis, à represália contra os fracos paulistas que haviam cedido à tentação de aquecer-se ao calor do poder.
 Verificou-se o ataque. Tentava-se extinguir, até pela violência, a sede do partido político que apoiava o interventor federal de então. Seus adeptos reagiram. Tiros partiram de todos os lados. E quatro vidas moças, algumas recém-abertas para o mundo, tombaram no gramado e no lajedo da Praça da República, sacrificadas à vontade paulista de retomar a direção de seus negócios.
 Mais tarde, outra vida, ferida naquele anoitecer agitado de 23 de maio, veio somar-se às quatro primeiras. 
 Assim morreram Mario Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Drausio Marcondes de Souza, Antonio Americo de Camargo Andrade e Orlando de Oliveira Alvarenga.
 Das iniciais dos quatro primeiros formou-se um símbolo: " M. M. D. C. " que na guerra de 32 foi a alma forte que levou, intemeratamente, desde o primeiro instante, toda a mocidade paulista para os campos de batalha.
 A história do heroísmo desses bravos e a significação de sua morte, não é preciso escrever: o coração paulista, cioso de suas glórias, transmitirá, de geração em geração, como um culto, o ideal do seu valor.
 "M. M. D. C. " será, para todo o sempre, o retrato do brio e da dignidade paulistas!  Os nomes que o inspiraram precisa ser biografados. Darão um novo brilho a esta obra. Serão o seu pórtico e o seu orgulho.  Ei-los:

MARIO MARTINS DE ALMEIDA



  Nasceu em São Manuel, no Estado de São Paulo, no dia 8 de Fevereiro de 1901. Era filho do Coronel Juliano Martins de Almeida e de d. Francisca Alves de Almeida, falecida e irmão dos srs. João Baptista Martins de Almeida, Juliano Martins de Almeida Filho, ambos falecidos; Galeano Martins de Almeida, casado com d. Maria Sampaio Martins; d. Alice Martins de Almeida Pannain; d. Guiomar Martins de Almeida Sampaio, casada com o sr. Manuel Sampaio de Barros Junior e d. Vera Martins de Almeida Amaral, casada com o Dr. Alvaro do Amaral.
 Foi estudante do Mackenzie College, tendo terminado seus estudos sob a direção do professor Alberto Kullmann. Era fazendeiro de Sertãozinho estando, naquele dia, em São Paulo, de passagem, em visita a seus pais. Está sepultado no cemitério da Consolação.

EUCLYDES BUENO MIRAGAIA



  Nasceu em São Jose´dos Campos, no dia 21 do mês de Abril de 1911. Era filho do Sr. José Miragaia e de d. Emilia Bueno Miragaia. Deixou os seguintes irmãos:  Dyonisia Miragaia Carmine, Maria Aparecida Miragaia, Joaquim Bueno Miragaia, Benedicta Bueno Miragaia e Ivino Bueno Miragaia.
 Foi aluno da Escola de Comércio Carlos  de Carvalho, de onde se passou, no terceiro ano, para a Escola de Comércio Alvares Penteado. A 23 de Maio, quando foi ferido e morto, era auxiliar de um cartório em São Paulo.

DRAUSIO MARCONDES DE SOUZA



  O mais jovem. Pouco mais que uma criança. Homem pelo sentimento. Patriota como poucos. Nasceu à rua Bresser, na cidade de São Paulo, no dia 22 de Setembro de 1917, filho do Sr. Manuel Octaviano Marcondes de Souza, farmacêutico e de d. Ottilia Moreira da Costa Marcondes. Ferido no dia 23, a despeito dos cuidados de seus pais e de seus parentes, nada foi possível fazer à sua saúde. Em seu leito de dores, animando sua mãe, Drausio, numa conformação apenas não admirável porque partia seu espírito heroico, dizia: "Eu estava destinado para este sacrifício. Se mil vidas tivesse, todas elas daria pela nobre causa da libertação da terra que me viu nascer".  No dia 28 de Maio, a uma hora e cinquenta minutos, falecia de uma peritonite. Ao baixar seu corpo à sepultura, no jazigo da família, no Cemitério da Consolação falaram um representante da Liga Paulista pró-Constituinte, o Sr. João Felizardo Junior e, por último, seu progenitor, o Sr. Manuel Octaviano Marcondes de Souza.
 Deixou os seguintes irmãos:  Yvonne, Carlos Joffre, Danilo e Darclé Marcondes de Souza.

ANTONIO AMERICO DE CAMARGO ANDRADE



  Nasceu no dia 3 de Dezembro de 1901, filho do Sr. Nabor de Camargo Andrade, falecido e de d. Hermelinda Nogueira de Camargo. Era casado com d. Inaiah Teixeira de Camargo e deixou três filhos:  Clesio, Yara e Hermelinda.
 Era irmão do Sr. Cyro de Camargo Andrade e de donas Laura e Rita de Camargo Sampaio Ferraz.

ORLANDO DE OLIVEIRA ALVARENGA
  Nasceu em Muzambinho, Estado de Minas, no dia 18 de Dezembro de 1899. Era filho do Sr. Ozorio Alvarenga e de d. Maria Oliveira Alvarenga. Deixou viúva d. Annita do Val e um filho de nome Oscar. Irmão do Sr. Antonio Alvarenga, residente em Rio Preto.
 Seu falecimento deu-se no dia 12 de Agosto de 1932, num quarto do Hospital Santa Rita, para onde fora conduzido depois de ferido gravemente durante as ocorrências do dia 23 de Maio.
 Exercia as funções de escrevente juramentado.


A Guerra começou na Praça da República
  Na esquina da Praça da República com a Barão de Itapetininga de dentro da sede do Partido Popular Populista o ataque começou com gente preparada e fortemente armada do Partido Popular Populista e a fuzilaria a cada momento aumentava, com uso de granadas, jogadas nas praça e com o tiroteio as primeiras baixas nos paulistas. Tiroteio até às 4,15 da manhã de 24 de maio no chão da praça os heróis supramencionados.
 Horas depois, as iniciais dos nomes dos mortos haverão de formar a sigla da sociedade, em princípio secreta, que viria a ser forja e martelo da revolução constitucionalista: MMDC.

                         Foto única em que estão assinalados Dráusio, Alvarenga, Camargo, Miragaia e Martins momentos antes de serem feridos ou mortos no conflito da esquina da Itapetininga com a Praça da República. Em primeiro plano, à esquerda, Raul Noce.

 Velório e sepultamento dos mortos de 23/24 de maio que aceleraram o eclodir da Revolução

                      Coberta com a Bandeira Brasileira a urna com os cadáveres do levante constitucionalista



Velório e sepultamento dos jovens MMDC ocaiões para discursos e comprometimentos Constitucionalistas



 Dos ativistas
  Embora notória, até localizável a montagem de movimento armado, não poderia faltar à organização o toque do sigilo, da iniciação ritual. Boa parte dos que conspiravam provinha das associações secretas estudantis das faculdades de direito, de engenharia, de medicina. Estruturou-se pois uma central secreta.
  No dia 24 de maio, ainda ferventes as cabeças e os ânimos em razão dos sucessos sangrentos da noite-madrugada na Praça da República, reuniram-se em salas privadas do Restaurante Posílipo: Joaquim de Abreu Sampaio Vidal, Aureliano Leite, Prudente de Moraes Neto, Paulo Nogueira Filho.  Horas mais tarde, no Clube Comercial, encontro de confirmação, já com o círculo de aderentes alargado pela presença de Cesário Coimbra, Francisco Mesquita, Francisco A. Santos Filho, Edgar Baptista Pereira, Bernardo Antônio de Moraes, Alberto Americano, Roberto Vítor Cordeiro, Carlos de Souza Nazaré, Bueno Ferraz, capitão Antônio Pietscher, Antônio Carlos Pacheco e Silva, José A. Teles de Matos, Gastão Grossé Saraiva, Hermann de Moraes Barros, Flávio B. Costa, Moacir Barbosa Ferraz, Waldemar Silva, Bráulio Santos, Jorge Resende e Tiago Mazagão Filho.

Sentinelas civis na entrada da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, 09 de julho de 1932.

  O nome da associação seria "Guarda Paulista", mas no decorrer dos entendimentos foi lembrada a necessidade em que ficavam os paulistas insurgentes de manter viva a chama que, à noite, levara ao ferimento e à morte os primeiros combatentes de 32: Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Antônio Américo de Camargo Andrade e Dráusio Marcondes de Souza. Os iniciados começariam sua missão batizando a entidade com o nome-lembrança das vítimas: CDMM.  No final da reunião as iniciais estavam consagradas, embora trocadas, em razão da eufonia, para MMDC: Martins-Miragaia-Dráusio-Camargo.
  Os ativistas passaram a ocupar-se regularmente com a preparação de pelotões guerrilheiros do tipo "apresentação e ação fulminantes".  Quase toda a cidade foi coberta pelo plano: os pelotões, ativados mediante senhas altamente secretas, a serem transmitidas no minuto derradeiro, ocupariam pontos estratégicos, repartições, estações ferroviárias, emissoras radiofônicas, serviços públicos.

Voluntários no Pátio das Arcadas da Faculdade de Direito.

  Iniciada a luta, o MMDC foi tornado público e oficializado pelo decreto 5.627-A, de 10 de agosto, ganhando esquematização burocrática. Ligado diretamente ao gabinete do Secretário da Justiça, tinha por coordenador Luís Pisa Sobrinho.  A superintendência dos departamentos foi alojar-se, inicialmente, na Faculdade de Direito, mudando-se logo para o prédio antigo do Fórum - esquina da Rua do Tesouro com a Quinze de Novembro.  Mais tarde, ampliado, ingurgitado pela inclusão de departamentos e serviços, lotou as instalações da Escola do Comércio Álvares Penteado.
  Modelo de organização à base de voluntariado, reunindo centenas de técnicos, o MMDC ocupou-se com a direção geral do abastecimento, a intendência, as finanças, engenharia, saúde, correio militar, mobilização e serviços auxiliares.
 Ao MMDC foi entregue, entre outras, a missão de manter a segurança das cidades. Elementos acima de qualquer suspeita escolhiam e chefiavam grupos de voluntários na tarefa de montar guarda às ruas, às casas, aos estabelecimentos públicos, comerciais e industriais.

Júlio Marcondes Salgado
Ação combinada toda a Força Pública, com o seu comandante à frente, coronel Marcondes Salgado

  Na Vila Cerqueira César, capital, afeta à 4ª divisão do MMDC paulistano, um desses guardas voluntários, humilde, retraído, absorto, chamava-se Vítor Brecheret. Na lista de adesões, entre carroceiros, metalúrgicos, advogados, proprietários, comerciantes, comerciários, pedreiros, alfaiates, barbeiros, professores, médicos, bancários, aposentados, ele qualificara-se "artista escultor".


 Acima, foram traçadas as biografias dos heróis de 23 de Maio, daqueles que inspiraram a instituição " M. M. D. C. " . Seus nomes servirão simplesmente como pontos de referência. Acima deles, além de suas filiações paternas ou maternas, cintilam a luz de suas almas, o brilho de seus espíritos, o seu amor melhor - que foi São Paulo.
 Os mortos de 32 são inspirações do Alto: seus feitos são exemplos que ficarão como lições de civismo, como fanais rutilantes, capazes de guiar a nacionalidade para imortais destinos.


"Perpetuemos a memória do Soldado Paulista de 1932... Soube o soldado paulista, além do mais, sacrificar-se heroicamente por São Paulo, com a fidalga elevação de nunca dar a entender que se sacrificava. O sobrevivente não se jacta de haver cumprido o dever: não o cumprir seria indigno; alegar que o cumpriu parece-lhe desaire. Assim, e guardando varonil concordância entre o gesto e a palavra, o que caiu e o que ficou de pé. Este hoje nos apareceu à memória e aos olhos sob os aspectos da abnegação, da honra cívica e da singeleza... Tombou por amar à justiça: testemunhemos a continuidade desse amor à justiça, pelos anos em fora, erigindo-lhe o monumento da nossa veneração e da nossa saudade, que seja, ao mesmo tempo, a viva mostra de uma gratidão comovida." (Valdomiro Silveira)

"Aos épicos de julho de 32, que, fiéis cumpridores da sagrada promessa feita a seus maiores - os que houveram as terras e as gentes por sua fé - na lei puseram sua força e em São Paulo sua Fé." (Guilherme de Almeida)

Fontes: A Revolução de 32 - Hernâni Donato e Cruzes Paulistas

segunda-feira, 19 de março de 2012

HOMENAGEM AO VALOROSO COMBATENTE DE 1932 QUE NOS DEIXOU: CAPITÃO GINO STRUFALDI

Uma homenagem dos Núcleos de Correspondência ao nosso eterno presidente

GINO STRUFALDI
Veterano da Revolução de 32 e Presidente de Honra da Sociedade dos Veteranos de 32 - MMDC
( 14 de julho de 1914 - 15 de março de 2012 )

sábado, 17 de março de 2012

O PIRACICABANO SUD MENUCCI E O MOTIVO DA SUA NEUTRALIDADE NA REVOLUÇÃO DE 1932

Sud Menucci e o outro lado da moeda
por Ralph Mennucci Giesbrecht

É sempre interessante ler sobre o outro lado da moeda, ou seja, o que fez uma pessoa de influência em São Paulo durante a Revolução de 1932 e não era a favor dela?
Sud Mennucci (1892-1948), meu avô, foi uma dessas pessoas.


Sud era professor primário formado em sua cidade natal, Piracicaba, SP. Fora isso, foi autodidata. Entrou para trabalhar no jornal O Estado de S. Paulo em 1925, chamado por Júlio de Mesquita. Recusou a primeira chamada: na época, ele, que já havia publicado inúmeros artigos na imprensa sobre educação e outros assuntos, além de ter dois livros publicados, era Delegado Regional de Ensino em Piracicaba, o primeiro que ocupou esse cargo na história sem ter jamais sido antes diretor de escola. Júlio de Mesquita, o filho, insistiu: ele negou novamente. Em março, Julinho mandou-lhe uma carta que continha uma proposta irrecusável para ser redator. Sud aceitou e veio trabalhar em São Paulo.


                               

Sua fama crescia entre os políticos. Seu grande interesse continuava sendo na educação do Estado e do País, principalmente na reforma do Ensino Rural. Em meados de 1930, ele publicaria o que seria sua obra-prima no assunto: o livro A Crise Brasileira de Educação, obra-prima sobre o ensino rural e urbano no Brasil, que mais tarde, em 1933, render-lhe-ia um prêmio em dinheiro da Academia Brasileira de Letras. Correu o Brasil dando palestras antes e depois do livro publicado. Porém, não conseguia ele avanços no convencimento dos governantes da época a começar, pelo menos, uma mudança no sistema de ensino, que ele considerava falho. Fico imaginando o que ele diria se visse o atual, oitenta anos depois. Ele era feliz e não sabia.


Quando estourou a revolução de 1930, Sud foi chamado por um amigo seu, que foi seu colega na direção de uma revista paulista efêmera, mas famosa, "Arlequim", no final dos anos 1920, para integrar um dos "clubes" que se formaram após a vitória de Vargas em outubro. Era a Legião Revolucionária, ao lado de outras, como o Três de Outubro e o Cinco de Julho. A Legião fora formada em 12 de dezembro de 1930 por Miguel Costa, João Alberto e Mendonça Lima, em São Paulo. De tendência socialista, havia nela diversas correntes que iam desde o apoio a Vargas até o comunismo claro. Sud ficou entusiasmado com o que viu e achou que afinal havia chegado a oportunidade para a reforma do ensino brasileiro. Nos primeiros dias, ganhou o apoio de Miguel Costa, já ele então presidente da Legião. Imediatamente, Costa colocou Sud como diretor do jornal O Tempo, criado no final de dezembro do mesmo ano pela própria entidade.


                                                                                                  



                             

Por motivos diversos, Sud permaneceu somente duas semanas no cargo e no dia 10 de janeiro foi empossado como Diretor da Imprensa Oficial do Estado. Ao mesmo tempo, o recém-formado Centro do Professorado Paulista o convidou para ser seu Presidente, aproveitando-se da influência que, a essa altura, Sud possuía entre a classe política que assumira São Paulo e indicada toda ela por Getúlio. Ele ainda mantinha seu cargo de redator no O Estado de S. Paulo e também era um dos chefes da Comissão que estudaria uma reforma municipal no Estado.


Em setembro de 1931, meu avô tomou parte no Congresso da Legião Revolucionária de São Paulo, fazendo a propaganda do seu plano para o ensino e apresentando suas propostas. Teve o cargo de 2o vice-presidente do Congresso. Seu discurso foi considerado o melhor, superior até ao de Miguel Costa. O seu programa foi aprovado. Tudo ia correndo bem para ele, embora nem tanto para a Legião: no Congresso ficaram muito claras as dissidências internas. As opiniões de Costa e de vários dos membros eram contraditórias. O apoio a Vargas era grande por parte do primeiro e rejeitado por vários membros.



No final de novembro, Sud foi indicado para substituir Lourenço Filho como Delegado-Geral do Ensino, cargo que hoje seria mais ou menos o de Secretário Estadual da Educação. Sud poderia agora implantar suas ideias no Estado, com o forte apoio de Miguel Costa, então com o prestígio de ser o "interventor militar" no Estado e tendo, na prática, mais poder do que os interventores de Vargas - que, aliás, já começava a pensar em puxar seu tapete, apesar do massivo apoio que Costa lhe dava. Nessa época, porém, a situação em São Paulo começava a se deteriorar e os problemas se acumulavam. Ao mesmo tempo em que Sud publicava a sua reforma do ensino, a revolução se desenhava, com a publicação do Manifesto à Nação pelo Partido Democrático, nove dias depois.



A oposição à reforma de ensino também não foi pequena e deu-lhe muitas dores de cabeça. Os ataques vieram em massa, contra este ou aquele item. Do outro lado, o PRP, o partido que governava São Paulo até a revolução e ainda existia, aderiria ao Manifesto e participaria do grande comício de 25 de janeiro “pela volta do País à normalidade nacional”. Miguel Costa disse então a Vargas que havia que substituir Rabelo na interventoria, pois ele o alvo direto dos ataques da oposição: desta vez, por alguns dias, o Sud foi um forte candidato ao cargo. Quem acabou sendo indicado foi Pedro de Toledo, considerado como conciliador. 


                

As coisas acalmaram por algum tempo, mas voltaram a se incendiar em maio. Sud passava o tempo viajando pelo Estado e inaugurando escolas, tentando a aprovação para suas novas regras. Fez isso até 23 de maio: nesse dia, o MMDC atrapalhou seus planos. A bagunça e a morte dos estudantes fizeram com que Sud entregasse o cargo no dia seguinte. A Legião já havia se transformado no PPP. No dia seguinte, Pedro de Toledo demitiu Miguel Costa do comando da Forca Pública. O PPP começava a perder influencia no governo. Vargas ficou somente olhando e não acudiu nem Miguel Costa nem ninguém. E Sud? Como sua reforma jamais teve seu decreto aprovado, pois era seguidamente protelada (o Brasil não muda mesmo...), ficou sem vê-la aplicada. 


O prestígio de meu avô, no entanto, continuava intacto: em 12 de junho, recebeu um grande almoço para 200 pessoas em sua homenagem no Clube Comercial, onde o próprio João de Toledo, diretor-geral do Ensino que o substituiu, esteve presente. Duas semanas, Costa convocou uma reunião do PPP “urgente”, mas já era tarde. A essa altura, Sud e muitos outros da ex-Legião estavam já desiludidos e abandonando o barco. Passaram-se alguns dias e Sud resolveu deixá-la definitiva e oficialmente. Só que era meio tarde. Ele enviou a carta para publicação no jornal O Estado de S. Paulo no dia 10 de julho, um dia depois do início da revolução. Com a situação já tensa, a nota não foi para o prelo e não saiu. Isso não fez a menor diferença para Sud, pois ele não apoiou a revolução: ele sabia o que, parece, poucos sabiam, que a Região Militar, ainda com forte influencia de Miguel Costa, havia mandado esvaziar de armas e munição o Arsenal de Guerra. Além disso, ele não concordava com os ideais da revolta, pois achava que uma volta ao status quo anterior à revolução de 1930 seria um retrocesso. Sud era teimoso, acreditava no que acreditava. Não foi para o front, mas decidiu ficar quietinho em sua casa na Vila Mariana.


                                                                                      

O estouro da revolução, no entanto, transformou-o de homem influente em homem perseguido. Se não está com a revolução, então está contra – e ele, sentindo as ameaças logo nos primeiros dias, foi se esconder nas Perdizes, na casa de seu cunhado, de onde teve de fugir logo depois, pois alguém o denunciou. Quando seus captores chegaram, ele havia acabado de sair por outro lado. Foi direto para o sítio do cunhado no Embu, uma casa mal mantida no meio do mato. Ficou ali mais de dois meses, enquanto sua esposa e quatro filhos permaneceram na Vila Mariana, quase passando fome. Maria, sua esposa, conseguiu mandar os filhos para o interior, enquanto dois irmãos dela e um sobrinho foram presos na casa, talvez para provocar uma reação de Sud – que não aconteceu. Foram soltos dias depois, pois não havia nenhuma acusação contra eles. Amigos da família levavam comida para Maria, mas a casa vivia sob observação.


Do Embu, Sud enviava bilhetes para Maria, que seguiam levados por um amigo professor, Máximo de Moura Santos. Uma carta que escreveu para Rodrigues Alves Sobrinho, seu conhecido e secretário de Estado, Máximo e seu cunhado Siqueira (que permaneceu no front por algum tempo) se recusaram a entregar. Sud tinha informações das notícias do front por seus amigos e parentes e aproveitava-se de seu quase absurdo conhecimento da geografia do Estado para entender o que ocorria. Máximo lhe disse que a carta, onde Sud se apresentava como mediador das duas partes, seria mal interpretada de qualquer forma e ele correria perigo. Propôs a meu avô que entregasse outra carta com termos diferentes que Máximo sugeriu. Sud se recusou a fazê-lo. Máximo provavelmente tinha razão: já na metade final da guerra, um jornal de Rio Claro publicou uma notícia falsa, de que ele havia sido preso no Mato Grosso, “irradiando falsas notícias sobre a guerra para os exércitos inimigos”.


                                                                         

No dia 23 de setembro, sabendo que a derrota estava próxima, foi escondido para a casa de amigos do cunhado nas Perdizes, mas ainda se mudou duas vezes de casas naquela região até que no dia 3 de outubro foi para casa, segundo escreveu, “sob a ameaça de ataque a mão armada”. Voltou para a casa do cunhado, e depois, para casa novamente. Aí que se percebe a situação hipócrita: gente que se dizia seu amigo e que não prestou ajuda nenhuma durante seu “sumiço” agora pedia a ele que interferisse junto ao Governo Provisório (de São Paulo) para que minimizassem suas penas que lhes seriam impostas fatalmente. Houve gente famosa nessa história.




A comunicação de sua saída do PPP, que era datada de 10 de julho e deveria ter sido publicada nesse dia, somente o foi no dia 11 de outubro, e o jornal certificou os leitores que ela era real. Nesse dia, Sud foi para o Rio de Janeiro e foi recebido friamente por seus interlocutores: José Américo, Pedro Ernesto e João Alberto, entre outros. Agora, os dois lados desconfiavam dele.



Aos poucos, Sud recuperou a confiança de ambos os lados da disputa. Não se sabe, realmente, até que ponto. Continuou a sua carreira, jamais disputando nenhum cargo eletivo (exceto sua candidatura em 1933 para deputado constituinte de São Paulo, quando não conseguiu a vaga) e até 1945, quando Vargas caiu, ocupou cargos de expressão no Governo Paulista, reassumindo por duas vezes o cargo de Diretor-Geral de Ensino. Depois disso, caiu doente e faleceu em julho de 1948, deixando um dos mais vastos acervos documentais que conheci.



O julgamento de meu avô é feito pela história.


sábado, 10 de março de 2012

DO RECEBIMENTO DA MEDALHA MÉRITO CONSTITUCIONALISTA

Levo ao conhecimento público com enorme satisfação que em 22/02/2012 fui agraciado pelo Núcleo MMDC LESTE - Juventude Constitucionalista, com a Medalha "MÉRITO CONSTITUCIONALISTA" oficializada pelo Decreto nº 57.526/11 do Governo do Estado de São Paulo pelos relevantes serviços prestados a epopeia patriótica da Revolução constitucionalista de 1932, agradecendo ao emérito Presidente daquela Diretoria Executiva Sr. NATANAEL SOARES SANTOS.





DIPLOMA MÉRITO CONSTITUCIONALISTA (anverso)

DIPLOMA MÉRITO CONSTITUCIONALISTA (verso)



MEDALHA MÉRITO CONSTITUCIONALISTA