sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ENTREVISTA COM JOAQUIM MORENO



Programa Piracicaba Histórias e Memórias
Produção e apresentação Jornalista e Radialista JOÃO UMBERTO NASSIF
Transmitido pela RÁDIO EDUCADORA DE PIRACICABA AM 1060khertz
aos sábados das 10:00 às 11:00 horas da manhã.
Contato com João Umberto Nassif :e-mail: joao.nassif@ig.com.br

Entrevistado: Joaquim Moreno

A grande pergunta que surge é quanto à denominação correta MMDC ou MMDCA?
(M de Martins, M de Miragaia, D de Drauzio, C de Camargo). O dia 23 de maio de 1932 é lembrado pela morte de quatro jovens paulistas: Mario Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Drausio Marcondes de Souza e Antonio Américo de Camargo Andrade que entraram em choque com a polícia em uma manifestação na Praça da Republica, no centro de São Paulo. Os jovens protestavam contra o governo instalado em 1930. As iniciais dos nomes dos quatro estudantes - MMDC - passaram a ser o símbolo da luta de São Paulo por uma Constituição. O movimento que teve início com a morte dos quatro estudantes eclodiu finalmente no dia 9 de julho numa rebelião armada que passou para a História com o nome de Revolução Constitucionalista de 32. Um outro jovem, Orlando Alvarenga, também foi baleado, mas ele faleceu depois, sendo que o seu nome não foi incluído na sigla MMDC. Foi o então Governador Pedro de Toledo quem oficializou a sigla como símbolo da Revolução Constitucionalista de 1932. A sigla sempre provocou discussões em torno da inclusão ou não da letra “A” representando o estudante Alvarenga. Em 2002 por meio do Decreto 46.718, O governo do Estado de São Paulo criou o Colar “Cruz de Alvarenga e dos Heróis Anônimos” para homenagear o estudante e outros heróis. A Lei 11.658 de 13 de janeiro de 2004, institui o “Dia dos Heróis do MMCDA” a ser comemorado anualmente no dia 23 de maio. A Sociedade Veteranos de 32 - MMDC esclarece que, a sigla MMDC não pode ser mudada, jamais, pois: 1. A Sigla MMDC é patenteada e de acordo com o processo 8244756118 do INPI sua violação constitui crime. 2. Historicamente MMDC é conhecido mundialmente. 3. Pessoas muito mais inteligentes do que nós, como Guilherme de Almeida, Ibrahim Nobre, Aureliano Leite, Alfredo Elis e centenas de autoridades que viveram na época não mudaram a sigla.4. Alvarenga merece ser homenageado no dia 12 de agosto, data da sua morte, pois a bala que o matou não foi a mesma que o feriu em 23 de maio de 1932. Sua entrada no Hospital Santa Rita, mortalmente ferido (medula seccionada), foi em 13 de julho de 1932, 44 dias após 23 de maio, sendo que os médicos atestam que se a bala de 23 de maio tivesse seccionado a medula sua morte seria instantânea e não 81 dias depois. Essas Afirmações são da Sociedade Veteranos de 1932- MMDC. O entusiasmo coletivo que embalou o povo paulista em direção á liberdade, provocou a união de todos independente da classe social, do poder aquisitivo, da formação cultural, transformando-o: todos tinham o mesmo objetivo. Homens e mulheres sabiam que só assim conseguiriam vencer o terror de serem escravos em sua própria terra. Liberdade com responsabilidade, muitas vezes regadas com muito suor e sangue. Essa foi à semente plantada por aqueles que lutaram. Tiveram a duração de oitenta e cinco dias (de 09 de julho a 02 de outubro de 1932). Geograficamente se desenvolveram, sobretudo, nos estados de São Paulo e Mato Grosso (norte e sul). Também ocorreram alguns episódios isolados no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Bahia, Pará e Amazonas. A guerra civil de 1932 assumiu em muitas ocasiões o aspecto de uma luta encarniçada e selvagem. Ódios, paixões e ideais inspiravam os dois lados a lançarem mão de quaisquer recursos para abater o adversário. O número de mortos em combate, somente do lado paulista, somou cerca de oitocentos e trinta soldados, quase o dobro dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira que perderam a vida nos campos da Itália durante a Segunda Guerra Mundial. 

Joaquim Moreno, hoje do alto dos seus 92 anos de idade, lúcido, com excelente memória e disposição física traz para o presente algumas lembranças do que foi essa luta.

Qual é o nome dos seus pais do senhor?

Meu pai Nicolau Moreno Filho e minha mãe Leonora Locci ela era da Ilha da Sardenha. A família da minha mãe veio da Itália para Bauru, aonde compraram um sítio. Vieram: minha mãe meus tios, meus avós. Desembarcaram em Santos. Minha mãe veio solteira, casou-se aqui no Brasil. A família do meu pai veio depois, da cidade de Toledo, Espanha. O sobrenome Moreno é um derivativo de mouro, que por séculos dominaram aquela região. Meus pais casaram-se em 1913. Eu nasci em 22 de agosto de 1914 em Bauru depois nasceu a Carmem e a Nair. Minha mãe faleceu em 1922, até hoje não sei do que. Meu pai era sapateiro, fabricava sapatos em Bauru. Ele fabricava todo tipo de sapato feminino com salto. Eu ajudava nos remendos, batia sola. Não fazia sapato novo. No começo quando pegava a “vira” colocava a taxa, depois colocava prego. Estudei na escola primária até o primeiro e segundo ano. Depois fui colher algodão, o primeiro dinheiro que ganhei dei ao meu pai. Uma das coisas que aprendi mais tarde no sertão de Mato Grosso: levar uma vara bem cumprida para bater no trilho aonde vai se passar, isso faz com que as cobras que possam estar no caminho se afastem!

Após participar de uma colheita de algodão o senhor foi trabalhar aonde?

Fui trabalhar de balconista na cidade de Garça. Meu pai continuava com sapataria em Garça, eu arrumei emprego como caixeiro, vendia de tudo que o senhor possa pensar que existe em um armazém geral. Os produtos mais vendidos eram: o arroz, o feijão, a batatinha, o café, pinga, tudo era marcado na caderneta! Isso em 1927.

Naquele tempo vendia-se cerveja? 

Muita!

A cerveja era vendida quente?

Naquele tempo não havia geladeira. Tomava-se cerveja quente, mas também era colocada em um saco com gelo, que era fornecido pela fábrica de gelo.

Em 1932 o senhor foi servir como voluntário, qual foi o motivo do seu engajamento?

O movimento empolgava á todos! A propaganda que era feita no rádio era o máximo. Eu ficava durante todas as noites, ouvindo o noticiário da revolução. Dessa loja em que eu trabalhava fomos o contador, o gerente da loja, o irmão do dono e eu. Participei da revolução, permaneci por trinta dias preso. Meu setor de combate era a guarda do Rio Paranapanema para que o inimigo vindo do Paraná e do Rio Grande do Sul não atravessasse o rio. A minha companhia foi para render (substituir) o batalhão de Santos. O armamento todo passava pela minha mão, eu era Terceiro Sargento Furriel, tomava conta da munição. Usávamos fuzil, a famosa “matraca” não existia lá! (Matraca era um mecanismo bastante simples, composto por madeira e alças de ferro, que agitado pelas mãos do portador emitia um som semelhante ao de uma metralhadora em ação. O efeito psicológico sobre o inimigo era de que havia um enorme poder de fogo nas mãos dos combatentes paulistas!) Havia ao lado da estrada de ferro um canhão, isso na Fortaleza Itaipu em Santos. Do lado direito ficava o Rio Paranapanema e do lado esquerdo a Estrada de Ferro Sorocabana. Na revolução Constitucionalista de 1932 a guarnição da fortaleza alinhou-se com os paulistas, contra Getúlio Vargas. Um dos fortes do complexo de defesa, o Forte Jurubatuba, foi bombardeado por uma esquadrilha de hidroaviões das tropas governistas. Os constitucionalistas iludiam as forças federais trocando os pesados canhões Schneider por réplicas de madeira. Esses canhões embarcaram em um trem que ficou conhecido como "Fantasma de morte" e foram usados na linha de combate. A Fortaleza de Itaipu localiza-se numa área preservada de Mata Atlântica de 2 milhões e 400 mil metros quadrados.

Quem prendeu o senhor durante a revolução?

Foram soldados paranaenses. Colocaram-nos naquelas gaiolas de transportar gado. Fomos até Curitiba, de lá descemos até o porto de Paranaguá, aonde embarcamos em um navio com destino á Ilha das Flores, próxima á Niterói. Antes de ser presídio militar foi um local aonde os imigrantes que vinham da Europa ficavam por um período de quarentena.
O que o senhor fez nesses trintas dias em que permaneceu preso nas Ilhas das Flores?
Não podíamos sair dali para nada! Existia uma cerca eletrificada com treze fios de arame farpado! Permanecíamos conversando, dormindo.

Como era a comida?

A comida na maior parte do tempo era abóbora cozida, arroz e feijão. O feijão vinha com caruncho, pedras, terra.

O senhor tinha que fazer algum serviço lá?

Não tinha que fazer nada!

Ao ser libertado, qual foi o seu destino?

Retornei para Garça. Voltei ao meu trabalho no serviço público. Iniciei como porteiro. Permaneci por 31 anos trabalhando como servidor público. Após sucessivas promoções aposentei-me como diretor da receita. Como ainda tinha disposição para o trabalho após aposentado, trabalhei como corretor de seguros, galgando diversas promoções. Naquele tempo era uma região desconhecida do Estado de São Paulo. A Companhia Paulista de Estrada de Ferro saia de Bauru o ramal na Alta Paulista, ia até as barrancas do Rio Paraná. Vi passar o primeiro trem porque morávamos em frete onde ele passava. Naquela época ainda havia índios naquela área. Uma das estações que mais embarcou café foi a de Garças. Isso antes de 1925.

Como o senhor veio morar em Piracicaba?

Quando me aposentei fomos morar em São Paulo, e lá ficamos por muitos anos. As quatro irmãs da minha esposa moravam em Piracicaba. Viemos passear aqui e gostamos. Resolvemos mudar de São Paulo para Piracicaba, isso já faz 12 anos. Até os restos mortais do meu pai que estavam em Garça eu trouxe para Piracicaba.

O senhor lembra-se de ter atirado em algum oponente?

A minha função não era essa! Meu trabalho consistia em municiar a todos os meus companheiros.

Qual foi a reação do senhor quando acabou a revolução?

Foi como qualquer outra reação! Normal! O Embaixador Macedo Soares era o intermediário entre os prisioneiros e o Governo de Getúlio Vargas.

No seu ponto de vista, a morte de Getúlio Vargas ao cometer suicídio é uma versão convincente?

Tenho dúvidas!

http://www.teleresponde.com.br/joaquimmoreno.htm

NOTA: Vale a pena revermos a importante entrevista que o nosso saudoso e um dos mais valiosos Veteranos de 32 Sr. JOAQUIM MORENO concedeu ao Programa Piracicaba Histórias e Memórias há algum tempo atrás pouco antes do seu falecimento.

JOAQUIM MORENO nasceu no dia 22 de agosto de 1914 e faleceu em 27 de dezembro de 2010 sendo Sepultado na Quadra B; Setor 09; Jazigo: 225 do Parque da Ressurreição em Piracicaba.

Nossa singela porém respeitosa e merecida homenagem ao nosso inesquecível, pessoa exemplar, emérito ex-combatente e herói piracicabano da Revolução Constitucionalista de 1932.

Núcleo MMDC de PIRACICABA

Nenhum comentário: