quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A PARTE NEGRA DA NOSSA HISTÓRIA NA REVOLUÇÃO DE 1932

Revolução de 32 - A parte negra da nossa História


A História em sua grande maioria foi escrita pelos vencedores e também pelos brancos, no entanto, a Revolução Constitucionalista de 32 no Brasil foi escrita pelos vencidos, se bem que haja neste caso, uma vitória moral do povo paulista, mesmo assim prevaleceu a visão de mundo dos brancos. Será que não houve uma participação do elemento negro nesta guerra civil?

Tanto a capital como a zona rural do nosso Estado trazia ainda negros forros e libertos da Lei Áurea e seus descendentes, que se uniram e lutaram pela re-constitucionalização do Brasil. Digna de nota é a matéria assinada pelo professor de História da Unioesp - Petrônio Domingues, publicada na Revista Nossa História (nº 21, ano 2 – julho de 2005) e autor do livro “Uma história não contada - negro, racismo e branqueamento em São Paulo no pós-abolição” (Ed. Senac 2004), revela-nos o ilustre professor dados importantíssimos para a perpetuação dos fatos ocorridos em 32.

Segundo ele, houve a chamada LEGIÃO NEGRA, composta por três batalhões de infantaria, totalizando aproximadamente 3.500 combatentes de “homens de cor” e depois apelidados de “pérolas negras”, sob o comando civil de Guaraná Santana, comando militar pelo capitão da Força Publica Gastão Goulart e auxiliados pelo tenente Arlindo Ribeiro e por Vicente Ferreira.

Munidos de uniforme de constitucionalistas com a diferença de usarem um chapéu de abas largas, destacavam-se pela sua bravura ao serem enviados paras as linhas de frente do confronto. Um dos jornais da época referiu-se a eles nos seguintes termos: “Resistindo ao furor das hostes ditatoriais, muitas vezes enfrentando contingentes numericamente superiores, os bravos pretos não recuam nem se rendem. Tem sido assim o seu proceder em diversos recontros, fatos que têm sido testemunhados com visível admiração pelos demais companheiros que combatem ao seu lado”.

A Revolução de 32 mostrou a capacidade de mobilização de São Paulo nos mais diversos setores, desde angariar ouro, produzir armas, uniformes e prestar socorro, principalmente pelo apoio e participação das mulheres. Com os negros também não foi diferente, montaram uma comissão beneficente recolhendo de tudo junto as entidades e comunidades negras em prol da revolução e em favor da Legião Negra. Nesta participação da mulher negra, consta que cinco mulheres participaram como soldados, sendo a mais conhecida a cozinheira Maria da família Penteado Mendonça, que abandonou seu ganha pão para ingressar na guerra civil, alcunhada de “Maria Soldado”, sobre ela o jornal a Gazeta (5/9/32) referiu-se: “Uma mulher de cor, alistada na Legião Negra, vencendo toda a sorte de obstáculos e as durezas de uma viagem acidentada, uniu-se aos seus irmãos negros em pleno entrincheiramento na frente do sul, descrevendo a página mais profundamente comovedora, mais profunda cheia de civismo, mais profundamente brasileira, da campanha constitucionalista, ao desafiar a morte nos combates encarniçados e mortíferos para o inimigo, MARIA DA LEGIÃO NEGRA! Mulher abnegada e nobre da sua raça”.

Terminada a Guerra em dois de outubro com a vitória bélica do Poder Central, ficaram os estragos da mesma, casas destruídas, viúvas, órfãos, animais confiscados, plantações arruinadas, etc. O Governo de São Paulo, tentou ressarcir e minimizar um pouco a situação, mas isso obviamente não aconteceu, segundo o autor da matéria referida de forma igualitária, os negros foram os mais prejudicados nesta história.

Passando mais de setenta anos o mínimo que se pode fazer é trazer a tona a participação negra da nossa história, que por vários motivos não constam dos nossos livros didáticos e muito menos são contadas nas histórias escritas e editadas pelos brancos. Lembrando no entanto, que nossa bandeira paulista, proposta como modelo em 16 de julho de 1888, simboliza as três raças formadoras deste Estado, que o rubro-alvi-negro continue a inspirar e trazer igualdade ao nosso povo.

http://www.piracaia.com/index.php?option=com_content&view=article&id=224:revolucao-de-32-a-parte-negra-da-nossa-historia-&catid=28:valter-casalho&Itemid=86

A Legião Negra : Os Negros na Revolução Constitucionalista de 1932

Em 3 de outubro de 1930, Getúlio Vargas chega ao poder por meio de um golpe de Estado. Junto ao movimento tenentista, o "presidente" se mostra autoritário, caça adversários políticos e fecha instituições democráticas, instalando uma espécie de ditadura no Brasil. Para São Paulo, Vargas indicou o nordestino João Alberto para o cargo de governador. As elites paulistas não aceitaram a situação e passaram a defender a democratização do País. A pressão foi tanta que, João Alberto e mais três interventores nomeados por Vargas para "comandar" São Paulo foram derrubados.

Aos poucos, a luta que começou nas elites paulistas ganhou a adesão de toda a população.

Em 25 de janeiro de 1932, um enorme comício juntou todas as forças da sociedade (até adversários políticos), afirmando que São Paulo iria até as últimas consequências pela democratização do Brasil. Em 23 de maio, uma greve mobilizou mais de 200 mil pessoas, que saíram às ruas para protestar. No conflito com policiais ligados à ditadura, quatro jovens estudantes foram mortos: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo.

Começava ali o movimento paulista de resistência à ditadura: o MMDC, que passou a alistar populares - de todas as profissões e classes sociais - para a Guerra Civil. Em 9 de julho de 1932, o Estado mais rico da Nação entra em conflito contra as forças federais comandadas por Getúlio Vargas. Todos são chamados para auxiliar, até as mulheres. E não seria diferente com os negros...

1 E m pouco tempo é formada uma comissão beneficente para arrecadar apoio material e humano entre a comunidade negra paulista. Surge a Legião Negra, que teve papel relevante na Revolução de 1932. O peso político do negro era grande, tanto que o próprio interventor de São Paulo, Pedro de Toledo, foi pessoalmente até a sede da Frente Brasileira Negra (a maior e mais respeitada entidade negra da época), pedir o apoio dos negros para a guerra. Porém, vários integrantes eram vanguardistas e operários (classe amplamente defendida por Vargas). Por isso, muitos negros não aderiram ao movimento constitucionalista


2 Sem o apoio integral da Frente Brasileira Negra, a presença de negros na revolução foi marcante e a Legião Negra (conhecida como os Pérolas Negras), escreveriam para sempre sua passagem em nossa história. É válido destacar que seu fundador e defensor, Joaquim Guaraná de Santana, era inicialmente da Frente Negra Brasileira e rompeu com esta quando não conseguiu apoio absoluto dos companheiros para a Legião Negra. Guaraná fundou então um partido, o PRN (só de negros) e um jornal, o Brasil Novo, em que se autoproclamava como a maior liderança negra do Brasil, mas antes mesmo do fim da guerra ele foi afastado da Legião Negra e substituído pelo advogado negro José Bento de Assis


3 A s principais frentes de combate da Legião Negra na guerra eram: Frente Leste (na divisa com o Rio de Janeiro); Frente Norte (divisa com Minas Gerais); Frente Oeste (divisa com Mato Grosso) e a Frente Sul (divisa com Paraná). Mas a participação dos negros na Revolução Constitucionalista não se fez apenas na Legião Negra, que contava com cerca de 2 mil homens. Havia outros negros - mais de 10 mil - espalhados por toda a força paulista. Vale lembrar que um dos principais comandantes da revolução era negro. Seu nome? Palimercio de Rezende.


4 Mesmo com os paulistas bastante confiantes, a diferença de forças era brutal. São Paulo tinha cerca de 30 mil homens, enquanto as força federais contavam com o dobro desse contingente, além de ser melhor equipada, contando com aviões e todo o arsenal de guerra do Brasil. Com o conflito, a cidade de São Paulo se modificou. Hospitais e fábricas aumentaram a jornada de trabalho, as aulas nas escolas foram suspensas e o transporte prejudicado. A iluminação elétrica (em fase de instauração) ficou comprometida nos bairros mais distantes, causando transtornos para a população, principalmente aos pobres e negros da periferia


5 A pós quase 3 meses de luta, as forças constitucionalistas começaram a enfraquecer. O número de mortos e feridos na guerra crescia e o isolamento de São Paulo era total. Sem o apoio dos mineiros e dos gaúchos (que também apoiavam uma nova Constituição, mas não lutavam ao lado de São Paulo), a rendição - assinada em 1º de outubro de 1932 - foi inevitável. Os principais líderes da revolução tiveram seus direitos políticos cassados e foram deportados para Portugal. Valdomiro Lima, gaúcho e tio de Darcy Vargas (mulher de Getúlio) foi nomeado interventor militar em São Paulo e permaneceu no cargo até 1933. Mas a guerra não foi em vão, porque, tempos depois, São Paulo conseguiu muitas vitórias no campo político e econômico.


6 Como em muitos episódios marcantes que fizeram a história do Brasil, os negros ficaram esquecidos, pois quase nada se falou da Legião Negra depois da Revolução de 1932 e de praticamente 1/3 dos soldados constitucionalistas negros que, há poucas décadas, haviam saído da escravidão. Do conflito, ficaram várias lições: quando pensamos que perdemos a guerra, estamos perdendo apenas uma batalha, porque todo o movimento foi fundamental para a redemocratização do Brasil. A outra lição é que não existe história, luta por liberdade e justiça neste país que não tenha a participação efetiva dos negros brasileiros.



Para saber os pormenores dos “Pérolas Negras” na Revolução Constitucionalista de 1932 acessar o link abaixo:




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