quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NEGROS NA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 32: A LEGIÃO NEGRA

Negros na Revolução Constitucionalista de 32. Uma história a ser lembrada


TAGs: A Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932, Milton Gonçalves, Oswaldo Faustino, Revolução Constitucionalista de 32, Tião Mão Grande


Tenho dedicado nessa coluna a expor aqui algumas produções culturais da periferia o que engloba os que não tinham voz e que agora produzem o que há de mais interessante. São criativos e revelam uma faceta que a grande historia a dos vencedores, não contempla. Quero destacar aqui a Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932. A participação voluntária de um grande número de afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932, contra o regime de Getulio Vargas. Assim como alguns filmes que trataram da participação dos negros na Guerra de Secessão nos Estado Unidos, do esquadrão de aviadores negros americanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial e dos soldados africanos das colônias francesas que também lutaram contra o eixo, os nossos negros não foram indiferentes. Penso que o que move essa participação, seja lá qual for o lugar no mundo, existe um sentimento de pertencimento, de pertencer a algum lugar. Fazer parte de uma sociedade mesmo que o segregue. Estava mais motivado que os outros soldados. Estavam imbuídos de lutar por uma liberdade que buscavam. A guerra impõe ao homem ultrapassar os seus limites para sobreviver e precisa do outro para se manter vivo seja o outro branco ou preto. São essas historias que precisam ser contadas.

Entre julho e outubro de 1932, milhares de paulistas lutaram contra a ditadura de Getulio Vargas, instituída dois anos antes. Entre os objetivos dos revoltosos estavam a promulgação de uma nova Constituição e a deposição de Vargas. Muito já se contou sobre esse episódio, mas em A Legião Negra – A Luta dos Afro-Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932 (Selo Negro Edições, 224 p., R$ 50,90), do jornalista Oswaldo Faustino, um ângulo quase inédito do episódio é apresentado: a brava atuação de uma legião formada, a princípio, por três batalhões voluntários compostos exclusivamente de afro-descendentes.

A idéia para o livro surgiu quando o ator Milton Gonçalves contou a Faustino que gostaria de fazer um filme sobre a Legião Negra e pediu ao escritor que pesquisasse o assunto. Recorrendo a documentos e publicações de época, obras acadêmicas e entrevistas com familiares dos combatentes, Faustino entrou em contato com a história de personagens reais que, no romance, interagem com os concebidos pelo autor. A pesquisa permitiu-lhe também reconstruir o contexto social, cultural e econômico da São Paulo da década de 1930 – ora em situações conflituosas, ora em aparente harmonia, se inter-relacionavam paulistas quatrocentões, negros, mestiços, imigrantes europeus e migrantes oriundos principalmente de Estados do Nordeste. Cada qual com seus costumes e em espaços determinados, é verdade. Aos negros e pardos restavam apenas os cortiços, porões e subúrbios, as rodas de tiririca, o jogo ilegal e os biscates.

O livro começa apresentando ao leitor o centenário Tião Mão Grande, que nos dias de hoje relembra sua participação, como voluntário, na Revolução de 1932. Sua memória recupera episódios e personagens que mudaram sua vida e a dos paulistas para sempre: alguns reais, como Maria Soldado, empregada doméstica que decidiu engrossar as fileiras revolucionárias; o advogado Joaquim Guaraná Santana e o grande orador Vicente Ferreira; outros fictícios, mas inspirados em arquétipos históricos, como Teodomiro Patrocínio, protegido de uma rica família que de início renega a ascendência africana e a negritude, mas depois se torna um grande líder militar da Legião Negra; Luvercy, jovem negro alistado contra a vontade pelo próprio pai, também combatente de ideais patrióticos; John, um jamaicano foragido dos Estados Unidos, que também participava das lutas antirracistas e convivia com pensadores naquele país, como seu conterrâneo Marcus Garvey.

A cada capítulo, Faustino recria os valores de uma época pautada pelo patriotismo, mas também por um intenso preconceito racial. Um dos méritos do livro é mostrar que, apesar de alijados de direitos e com chances mínimas de ascensão social, milhares de negros aderiram a uma causa estranha à sua realidade – causa que, embora justa, traria ínfimas mudanças à sua situação de excluídos.

“Poucos brasileiros sabem que esses bravos batalhões existiram. Infelizmente, o protagonismo negro continua fora da história oficial”, afirma Faustino. Por conta disso, um dos objetivos do autor foi criar uma obra acessível à juventude brasileira. De acordo com o escritor e compositor Nei Lopes, que assina o prefácio da obra, “A Legião Negra rompe com paradigmas, enganos e preconceitos, ajudando a reconstruir a história dos afro-descendentes com seriedade e dignidade”.

http://avisoemdois.com.br/divirta-se/negros-na-revolucao-constitucionalista-de-32-uma-historia-a-ser-lembrada/
Legião Negra

Oficiais da Legião Negra e acima 13 índios acantonados na Legião Negra
Logo que eclodiu o movimento militar contra Getúlio em São Paulo, organizou-se um corpo combatente de voluntários de cor (na época isso queria dizer preto e pardo). Este batalhão tomou o nome de Legião Negra.
Soldados e Oficiais da Legião Negra

Legião Negra de Soldados e Enfermeiras

 Batalhão Negro nos campos da Revolução de 1932



Piracicabanos combatentes na Legião Negra: da esquerda para a direita - Domingos de Campos; Francisco Sampaio; Ormindo de Camargo e Oscalino da Costa.



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